
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Cleopatra [1963] [Legendado]
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Se puderem, perguntem ao pó:
Lamento #5
Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim
Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí
Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar
sábado, 25 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Violinista no metrô (um conto de experimento social)

Um homem sentou-se em uma estação do metrô em Washington e começou a tocar violino. Era uma manhã fria de janeiro. Ele tocou seis composições de Bach por cerca de 45 minutos. Durante esse tempo, como era a hora do rush, cerca de 1.100 pessoas passaram pela estação, a maioria delas a caminho do trabalho.
Três minutos se passaram e um homem de meia idade notou que havia um músico tocando. Ele desacelerou o passo e parou por alguns segundos, para depois apressar-se novamente para cumprir suas tarefas.
Um minuto depois, o violinista recebeu sua primeira gorjeta: uma mulher jogou dinheiro na caixa do violino sem parar de andar.
Alguns minutos depois, um homem se encostou na parede para ouvi-lo tocar, mas, após olhar o relógio, voltou a andar novamente. Claramente estava atrasado para o trabalho.
O que prestou mais atenção foi um menino de 3 anos de idade. Sua mãe o chamou, com pressa, mas a criança parou para olhar o violinista. Finalmente, a mãe o puxou com força, e a criança continuou a andar, virando a cabeça durante todo o tempo. Essa ação foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem exceção, as forçaram a continuar andando.
Durante os 45 minutos em que o músico tocou, somente 6 pessoas pararam e ficaram por alguns instantes. Cerca de 20 pessoas lhe deram dinheiro, mas continuaram andando em seu ritmo normal. Ele coletou 32 dólares. Quando terminou de tocar e o silêncio predominou, ninguém notou sua ausência. Ninguém aplaudiu, ou lhe prestou algum tipo de reconhecimento.
Ninguém sabia disso, mas o violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele acabara de tocar uma das composições mais intrincadas e complexas já escritas, em um violino que valia 3,5 milhões de dólares.
Dois dias antes de tocar no metrô, Joshua Bell apresentou-se em um teatro em Boston, onde o preço médio dos ingressos -- que esgotaram-se todos -- era de 100 dólares.
Qual é o lado certo para subir em um cavalo?
Há uma recomendação de montar-se no cavalo pelo lado esquerdo do animal.
A origem desse hábito é um tanto confusa. Há estórias que contam que o cavalo poderia ficar irritado e provocar ferimentos em quem quiser montá-lo pelo la direito.
Outra vertente diz que se monta do lado esquerdo para facilitar a montaria por exemplo de um batalhão de cavalaria, pois estando os cavalos alinhados, e, cada cavaleiro resolvesse montar do lado que quisesse, não daria muito certo.
Há quem diga que, desde a antigüidade, os guerreiros que montavam cavalos, preferiam subir pela esquerda por causa da espada que carregavam desse lado.
Assim, o costume virou tradição.
Porém mesmo sem espada, é possível que os cavaleiros tenham colocado primeiro o estribo do lado esquerdo simplesmente porque a perna esquerda do homem costuma ser a mais forte.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Ela já não sabe cair em pé.
Precisei torcer o pé para entender, para me acalmar. Sim, pois não há nada pior que ver a menina chorando. Chorando de dor, de tapa na cara, de não ter onde se apoiar e cair. Choro de quem se doa, de quem sofre um pouco, é bonito. Choro de quem não pode correr com os outros.
Paciência.
Precisei torcer o pé e olhar para o outro lado.
Precisei torcer o pé e esfregar o nariz no chão para entender.
Precisei abrir as pernas e ficar de quatro.
Precisei me jogar para trás e me enrolar para entender que sorte é não ter para onde cair, é não ter onde cair morto, é botar os pés no chão, é olhar o mundo de baixo, é ganhar na loteria.
Agora não tem jeito. Paciência. Agora é esperar. Agora é torcer pra não demorar. É rezar pra tudo isso acabar.
Porque acaba. E quando isso acontecer eu já não vou mais estar por perto. Quando isso acontecer eu quero estar bem longe daqui. De onde eu já não ouça nenhum barulho, nenhum ruído. Porque eu não estou aqui para pisar no cocô de ninguém.
Exercitando a matriz:
Outro diálogo
Fage: Não senhor nada de canudos todos os meus títulos foram conquistados na vida Meus títulos são o lucro da empresa multiplicados por dois a cada três anos durante dez anos é uma receita multiplicada por 15 enquanto meus concorrentes estagnavam É a organização que deixo atrás de mim sólida pronta para enfrentar qualquer coisa é o ambiente que eu criei Um ambiente estimulante um ambiente fraternal que faz com que para cada um dos meus homens os interesses da empresa venham antes de qualquer coisa quando eu dizia vamos então íamos quando eu dizia é assim então era assim
Wallace: Quanto ganhava?
Fage: Com todas as comissões chegava a 91.000 bruto por ano
Wallace: E o senhor está pedindo
Fage: Para mim o salário não é o fator mais importante o que procuro antes de mais nada
Wallace: Apesar de tudo as pessoas na sua idade não se demitem sem mais nem menos sem garantir a retaguarda
Fage: De tanto fazer o que é razoável perde-se a dignidade
Wallace: Então explique
Fage: Ah uma história banal venda da empresa porque funcionava bem demais americanos que não entendem nada teria sido necessário que eu aceitasse continuar a trabalhar nessa firma onde tudo o que construí estava sendo desmontado
Wallace: Sua demissão teve de alguma forma para o senhor o valor de uma mensagem
Fage: Por que a gente trabalha? Para ganhar a vida? Mas que vida? Eu sei que a gente precisa ter uma ocupação eu vou me ocupar agora olhando este grão de poeira
Diálogo da peça: A procura de emprego- Michel Vinaver
Wallace: A sua mulher o acompanha?
Fage: Raramente ela esquia um pouquinho não muito
Wallace: Eu não faço muito esqui de pistas mas passeios
Fage: Nós também fazemos verdadeiras façanhas passar a noite nos refúgios dias inteiros na total ah eu o levaria com prazer conheço trilhas que poucos conhecem
Wallace: Descobri no ano passado alguns recantos quem sabe não teremos a oportunidade mas para o senhor é uma verdadeira paixão
Fage: Quando se leva uma vida como a minha
Wallace: Acelerada
Fage: O esqui é uma ruptura com tudo o que é confuso e mesquinho é se libertar da gravidade voar penetrar-se no desconhecido controlamos todos os músculos há uma espécie de harmonia entre a imensidão que nos envolve e o interior do corpo e é a minha filha com ela nos esquis somos unidos formamos uma dupla célebre em Courchevel ah o Fage e a filha dele
Wallace: A que hora costuma acordar?
Fage: Cedo estou de pé entre cinco e seis
Wallace: O que faz entre o momento que se levanta e o momento em que sai para o escritório?
Fage: Desculpe mas não estou entendendo
Wallace: Sou eu que me desculpo se a minha pergunta não foi clara
Fage: Tomo um banho
Wallace: Muito bom quente?
Fage: Morno debaixo do chuveiro recapitulo tudo o que vou ter que fazer durante o dia
Wallace: Fica muito tempo debaixo do chuveiro?
Fage:Estou esquecendo na verdade antes de tomar banho
Wallace: Ah
Fage: Claro faço ginástica começo pela saudação ao sol é um movimento de ioga muito simples que permite desabrochar uma maneira de tomar o impulso do dia
Wallace: Antes de se barbear?
Fage: Não consigo fazer a barba antes de minha xícara de café
Wallace: O senhor pratica ioga?
Fage: Encontrei esse movimento num programa de TV achei curioso experimentei
Wallace: Estávamos no banho
Fage: Desculpe no banho muitas vezes eu descubro a solução de meus problemas as decisões irrompem chego a esquecer o tempo isso até que um escarcéu na porta me traga de volta e é a minha filha Nathalie querendo usar o banheiro antes de ir à escola
Wallace: Se esse Mulawa quiser casar com a sua filha?
Fage: Nathalie tem dezesseis anos e aliás ela não quer saber de casamento nem de aborto.
Wallace: E o senhor?
Fage: Tem filhos o senhor?
Wallace: Se o pai fosse branco
Fage: E talvez pense que eu sou racista?
Wallace: É interessante no seu caso essa passividade assim como se deixou reduzir a pó na empresa do Bergognan
Fage: Como?
Wallace: Eles lhe pediram para baixar as calças e depois para andar de quatro com a bunda empinada e foi o que o senhor fez
Fage: Como?
Wallace: Sou eu quem lhe pergunto não foi por covardia congênita até pode se dizer que o senhor tem uma personalidade corajosa foi a necessidade de se sentir protegido o senhor tem alguma coisa infantil
Fage: Eu lhe asseguro que fiquei aliviado quando acabou
Wallace: Exatamente deixou que eles fizessem o que o senhor sabia que devia fazer mas não ousava fazer o senhor se aliviou como bem disse
Fage: Esses rapazes que recrutei formei com eles eu tinha uma responsabilidade
Wallace: E o senhor tenta encontrar na sua noção de dever um álibi para a sua covardia o que aliás duplica a covardia
Fage: Senhor eu tenho um outro encontro
Wallace: Sente-se
Fage: Engula suas palavras
Wallace: Vamos quieto
Fage: Você também cala a sua boca
Wallace: Bem estou anotando suas diferentes reações capacidade de aguentar golpes controle sobre si arroubo de dignidade
Horsebic
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Quando eu caí
Quando eu caí assim de lado quase de frente pro chão sabe,assim,tipo assim, mais pro lado direito que esquerdo.Eu tava suada aí pronto,pá!foi de repende... assim do nada,sabe?!
Todos os olhos se voltaram para mim.
Eu quis chorar de raiva
Quando caí foi porque eu escorreguei com ele em cima de mim, caí com ele em cima de mim.
Perdi,rapaz!
Ele tá bem, eu to com a perna pra cima, com gelo e com vontade de estar lá,com ele,levantando ele, subindo nele, segurando ele,subindo nele,protegendo ele.
Eu não tive força, eu falhei. Falhei pra mim, pro meu pai, pra minha mãe, pra ele,pra eles,falhei meu pé direito. A falha não tem volta ,e agora não tem mais dor, não dá dor.
É uma vontade de voltar o irreversível.
Quando eu caí eu chorei quietinha
Tô com dor no pé, não consigo rolar pra trás,pra frente,trotar,cair,nem andar nos quatro apoios...hoje minha perna me abandonou por completo. Hoje eu vou sonhar com a Austrália,hoje alguém me leva nas costas porque eu não consigo.
Eu não consigo!
Falhei porra,perdi, agora já foi.
foi porque eu me senti segura,e achei sabia correr.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Confronto e Cruzada
Referências de Cinthia Marcelle, videoartista mineira, que o ensaio de hoje me trouxe.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
o colega da baia ao lado.
Seabiscuit - Final Race
Secretariat - The Ultimate Racehorse
Quando eu caí...
Comecei derrubando a tampa dessa caneta, depois os papéis, os documentos e com eles todas as assinaturas de gente importante.
A mesa e os retratos da parede e com eles todos os parentes e amigos próximos.
A estante, os livros e consequentemente alguns filósofos e gênios literários.
Derrubei a persiana e o abajour.
A armação das janelas e das portas.
Derrubei os corredores e os transeuntes engravatados.
Derrubei o portão de entrada e as iniciais da empresa.
E quando toda a estrutura ruiu, derrubei a construção vizinha, sempre em obras, os postes de luz, a fiação elétrica, os bueiros e baratas e cigarros, a Rua inteira e a ladeira do lado.
Quando a cidade caiu derrubei o que faltava, até finalmente deixar o mundo no chinelo. Então derrubei os chinelos e o chão... Pra cair de novo.
Depoimento da Austrália
- Moça! Moçça! Você não pode comprar uma comida pra ela comer não?! Não quero dinheiro não...
Pega alí ó! Psiu! Pega alí! Mundo Verde.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Você se casaria por dinheiro ?
Ele me ajuda.
Inclusive, ele vai até viajar e eu vou sentir muita muita muita falta dele. Não sei assim, porque ele é uma pessoa muito atenciosa, muito legal comigo, uma pessoa assim, que eu acho que não existe mais hoje. Hoje eu gosto muito dele, não sei o sentimento mas eu gosto demais. Eu nunca vou encontrar uma pessoa igual a ele, nunca. Às vezes eu acordo, e ele tá me cobrindo na cama aí eu falo: ‘Nossa, onde eu vou encontrar um homem desse ? Nunca que eu vou encontrar!’.
Eu senti preconceito. Eu senti, principalmente, porque ele não é uma pessoa ‘Nossa, que homem bonito, entende?’. Ele é mais velho e não é uma pessoa tão bonita. Prá te falar a verdade, eu passei assim um tempo sem ir assim prá rua, prá não demonstrar que eu tava com ele. Como eu só me interessava por pessoas mais jovens, eu achei que as pessoas iam achar muito estranho eu tá com uma pessoa com mais de 50 anos de idade. Aí todo mundo perguntava: ‘Ah, é teu namorado ?’ e eu: ‘Não, amigo !’. Agora eu assumo. Eu falo que é meu namorado, que a gente mora junto.. Eu não sei porque mas as pessoas olham. As pessoas olham demais. As minhas amigas ficam assim: olhando, sabe ? Mas eu não ligo não. O importante é o que ele sente por mim e eu por ele.”
Lindalva.
além de sangue, mijo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
A ÚLTIMA ENCARNAÇÃO DE FAUSTO
Fausto:
Queres outra vez a minha alma?
Mefisto:
Sempre o mesmo ingênuo. A tua alma? Que é lá isso? Quem acredita em almas ainda hoje? Quero o teu dinheiro. Tu és rico. Reparte-o comigo.
Fausto:
Com que direito mo pedes?
Mefisto:
Com o direito que a tua sociedade se arroga de condenar os que roubam. Venho propor-te um negócio banal de compra e venda. Comércio legítimo! Troca de capitais, como convém a dois cavalheiros da nossa roda. Tu me dás metade da tua fortuna, que eu te darei uma fortuna inteira. Como vês, uso honestamente da linguagem do mais honesto industrial da praça quando propõe a sua mercadoria.
Fausto:
Abandona de vez os teus sortilégios. Que queres?
Mefisto:
Vender-te um ideal. Agora sou comerciante de ideais.
Fausto:
Antigamente eras mais nobre... Lutavas por um ideal!
Mefisto:
Antigamente!... Antigamente é uma palavra vã no tempo. Falemos do presente, que é a hora única da vida. Tudo o mais é hipótese. Como toda criação e toda criatura, eu também evoluí... Antigamente eu colecionava almas, porque as almas eram o bric-à-brac de antigamente. Era moda. Como tal, passou... É provável que volte ainda, porque a evolução é um círculo vicioso... Neste momento, porém, é mercadoria avariada, e uma alma não vale um marco no câmbio atual. Hoje, coleciono notas de banco e prefiro dólar. O dinheiro é a magia moderna. Uma carteira recheada, hoje, vale mais do que todos os caldeirões de Shakespeare, no quarto ato de Macbeth. Se ainda existisse o Olimpo e ainda existisse Júpiter, bastavam os bancos de Nova York para o depor do trono. O dinheiro é a majestade contemporânea dos domínios universais. Dispõe de tudo e tudo compra; homens e consciências, mulheres e virgindades. Dá golpes de estado na justiça e manda deportar o direito. Assim, eu, que sempre me considerei, segui a mutação do mundo, adaptando-me ao meio, como bom discípulo de Taine. Hoje sou como todo homem de juízo, um corretor, um intermediário, um agente, um profiteur, que é a última conquista nos postos avançados das especulações. E que julgas tu? O meu ideal é o do melhor estadista moderno: dinheiro, fortuna. Rico, com dinheiro nos bancos, um ou dois automóveis e algumas amantes casadas, estarei legalmente autorizado a corromper... Portanto, estarei no meu elemento de todos os tempos...espalhar pela terra aforas as irresistíveis seduções do mal.
Cataploft: Sobre cair em pé
Demolir : "deitar abaixo, desmantelar, destruir, derrubar" Os maiores demolidores eram os bancos, principalmente em cidades do interior, onde agências proliferaram. "Ser demolidor é agradável", "É uma lição de vida. Aprendi muito sobre as pessoas e sobre si mesmo fazendo demolições". (Os trechos tirei daqui) |
A Última História de Werther - de Inês Leitão
Este texto foi retirado de um caderno de teatro português. Quando li, me veio à cabeça a composição da Bel com o Rafa...
"Eu tenho um homem, por necessidade, claro. Porque os homens só estão nas nossas vidas por necessidade. Tenho a certeza de que o odeio mas de vez em quando ponho-me a acreditar que gosto dele.
Ele diz que me ama. Que sem mim não vive. Eu sei que me ama porque me bate. Eu faço o mesmo, bato-lhe sempre que posso. Devemos bater nas pessoas que amamos. Fica escrito nas marcas que lhes deixamos no corpo. Relembram-nos no prazer e na dor.
Isto foi quando vínhamos do cinema. Quase me partiu o braço por achar que eu estava olhando muito para o rapaz da fila da frente. Expliquei que seria impossível ver o filme sem olhar para frente. Ele perguntou se eu estava de gozação com ele, me arrancou da cadeira e me levou aos gritos para o carro. Era um filme de artes marciais... Eu adoro o Bruce Lee... Foi o anormal que comprou os bilhetes.
Estavam 200 homens na plateia: como é que eu podia ver o filme sem olhar para eles? Filho da Puta!
Amanhã vamos outras vez... O filme ficou pela metada e eu gostaria de saber como acaba.
Namoro com um atrasado mental.
Até que é bom, não me sinto mal. As vezes brincamos de tapas.
Se todos os casais brincassem de tapa os casamentos durariam mais. Nisso até somos saudáveis.
O jogo é simples: batemos e explicamos o motivo. Eu lhe dei um tapa por ele ter cortado o cabelo sem me consultar (parece um bicho com aquele corte). Ele me deu um tapa porque emagreci. (ele me pesava de 7 em 7 dias... emagreci 132 gramas na última pesagem).
Dei mais um tapa nele por ter me chamado de cabra na frente de minha tia: ele não chorou, mas sei que doeu.
O terceiro tapa que levei me doeu tanto... Chamei-o de cabão de merda e ele disse que ia embora de casa. Entrei num choro compulsivo: ele me abraçou, pediu desculpas, ajoelhou-se, acabamos com a brincadeira e quando reparei estávamos nus. Eu dispo-me sempre com uma facilidade admirável."
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Metal Redondo e Papel Forte
A/ Meus amantes. Esta noite dormirei com aquele que decifrar o enigma da globalização. O homem que deixou de construir sua casa, sua roupa, deixou de fazer sua comida, e que se isolou na pequena coisa que sabe fazer ou quer fazer ou pode fazer, agora cria um sistema para juntar todos a seu serviço. E diz que esse é o único sistema. Quer que todos acreditem nele e não admite que ninguém negue essa verdade de merda. Quando Copérnico disse que a terra girava em volta do sol e não o sol em volta da terra, Calvino gritou irritado: quem se atreve a colocar a palavra de Copérnico sobre a autoridade do Espírito Santo? E a autoridade do Espírito Santo não era nada. Muito menos a do novo deus desse sistema que quer ser definitivo. Que deus é esse? Um ou outro economista de merda, perdido e confuso nas suas contas de chegar. Olhe para os pés dele. Você não vai ver os pés dele. Eu não confio em homem que esconde os pés. E eles, os economistas, escondem os pés sob camadas de peles finas e moles, depois umas peles grossas e duras em forma de canoas, que eles usam desde o nascer até o por do sol. Meus queridos amantes. Vou ler para vocês mais um capítulo do nosso evangelho do Grande Irmão Tuiavii de Tiavéa.
O Sermão dos Mares do Sul sobre o homem branco, chamado Papalagui; capítulo segundo, versículo primeiro. Do metal redondo e do papel forte.A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte que ele chama dinheiro. O dinheiro é o objeto do seu amor, o dinheiro é a sua divindade. Muitos homens brancos há cujas mãos se tornam aduncas e semelhantes às patas da grande formiga dos bosques, à força de manejarem a todo instante o metal e o papel. Muitos há que pelo dinheiro sacrificaram o riso, a honra, a consciência, a felicidade e até mesmo mulher e filhos. O dinheiro é de fato o Deus do papalagui, se a gente considerar Deus aquilo que mais se adora. Quem não tem dinheiro nenhum não pode matar a fome nem mitigar a sede, não encontrará esteira para a noite e será lançado no “fale pui pui” e se falará dele em muitos papéis. Por tudo tens que pagar. Até para nasceres tens que pagar e quando morreres a tua aiga tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação. Atira uma peça de metal redondo na areia e verás as crianças precipitarem-se para apanhá-la. De onde vem o dinheiro? Basta que faças uma ação que eles chamam trabalho. “Trabalha e terás dinheiro”, diz uma lei moral dos papalaguis. Mas há uma grande injustiça e o papalagui não quer pensar nisso, pois nesse caso seria forçado a reconhecê-la. Nem todos aqueles que têm muito dinheiro trabalham muito. A coisa é assim: quando um branco tem dinheiro suficiente para a sua comida, para a sua cabana, para a sua esteira e algo mais ainda, manda logo o seu irmão trabalhar para ele, graças ao dinheiro que tem a mais. E quem tem muito dinheiro nada mais tem a fazer do que se deitar na esteira, beber “kava”, queimar seus rolos de fumo, e arrecadar o metal e o papel que outros, com seu trabalho, ganharam para ele. Dizem então os homens: é rico. Invejam-no, adulam-no e falam-lhe com palavras bonitas e escolhidas. Porque, no mundo dos brancos, a importância de um homem não é determinada nem pela sua bravura, nem pela sua coragem, nem pelo fulgor do seu espírito, mas sim pela quantidade de dinheiro que possui ou que é capaz de ganhar por dia. Amontoam o dinheiro que os outros ganharam para eles, o depositam num lugar be guardado e para aí vão carreando sempre mais, até que um dia já não precisam mandar os outros trabalhar para eles, trabalhando o próprio dinheiro no seu lugar. Nunca consegui perceber como isso era possível, sem haver magia negra; e, no entanto tudo se passa assim: o dinheiro multiplica-se como as folhas de uma árvore e o homem até quando dorme vai enriquecendo. E é por isso que eu não percebo por que é que aqueles que não têm muito metal redondo nem muito papel forte tanto se envergonham disso e tanto invejam o homem rico, em lugar de se considerarem, isso sim, dignos de inveja. De fato, assim como é de mau gosto um homem atravancar o peito com muitos colares de conchas, igualmente o será com o pesado fardo do dinheiro. Dificulta-lhes a liberdade de movimentos de que os seus membros necessitam. Palavras do profeta. Queridos amantes, a simplicidade do olhar do profeta esconde muita profundidade. Não é mais possível recuperar o paraíso longe do mundo do papalagui. Todos nós somos papalagui, todos somos homens brancos. Os negros, os amarelos, os mulatos, todos somos homens brancos. Mas se o evangelho Cristão Pornográfico não percebe como o papalagui faz o dinheiro trabalhar por ele sem magia negra, também nós não percebemos como os países ricos fazem os países pobres acreditarem que podem equiparar-se a eles segundo as leis do mercado global sem magia negra. A magia negra, queridos amantes, é a única explicação. Os mega-empresários, as bolsas de valores, o mercado futuro, os meios de comunicação utilizam-se da magia negra para dominar o mundo. É este o segredo da nova ordem mundial: a magia negra, a magia negra (entra em transe).
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Entrevista
Capitalismo cognitivo e trabalho imaterial
Eduardo Carvalho, Carta Maior
Maurizio Lazzarato é sociólogo independente e filósofo italiano que vive e trabalha em Paris onde realiza pesquisas sobre a temática do trabalho imaterial, a ontologia do trabalho, o capitalismo cognitivo e os movimentos pós-socialistas. Escreve também sobre cinema, vídeo e as novas tecnologias de produção de imagem.
Junto com o Grupo Knowbotic Research, elaborou o projeto IO_dencies/travail immatériel para a Bienal de Veneza. Além disso, participa de ações e reflexões sobre os “intermitentes do espetáculo” no âmbito da CIP-idf (Coordination des intermittents et précaires d’Île-de-France ), onde coordena uma importante “pesquisa-ação” sobre o estatuto dos trabalhadores e profissionais do espetáculo e do mundo das artes, além de outros trabalhadores precários. É um dos fundadores da revista Multitudes.
Maurizio Lazzarato está no Rio de Janeiro, onde lançará seu novo livro, As Revoluções do Capitalismo (leia mais aqui), e participará do Seminário Capitalismo Cognitivo nos dias 5, 6 e 7 de dezembro, no Centro Cultural Banco do Brasil, sob a curadoria do cientista político Giuseppe Cocco, e que reunirá 10 conferencistas de várias áreas, do Brasil e da Europa, que atuam pesquisando os desdobramentos do capitalismo contemporâneo. Ao longo dos três dias, o encontro discutirá os temas A natureza do conflito no Capitalismo Cognitivo, Trabalho e empresa na era do Capitalismo Cognitivo e Trabalho, Saber e Cultura, respectivamente. Carta Maior conversou com o filósofo que esclareceu o que é o Capitalismo Cognitivo e falou sobre trabalho imaterial, futuro das esquerdas, pós-socialismo e sobre seu trabalho com artistas desempregados na França:
Carta Maior - Há uma nova ligação entre capital, conhecimento e tecnologia? O que é o “Capitalismo Cognitivo”?
Maurizio Lazzarato - Capitalismo sempre foi a relação entre a tecnologia, o saber e o próprio capital. O que muda é o tipo de tecnologia e de saber envolvidos na relação. São tecnologias novas que concernem à mente, tecnologias biológicas. E o saber mudou porque diz respeito a essas relações. O Capitalismo Cognitivo trabalha contemplando todas essas relações e saberes. Também sobre as relações cognitivas, de opinião, sobre o trabalho da mente, sobre formas de comunicação. Em linhas gerais, é isso.
CM – Como a hipótese do “capitalismo cognitivo” contempla a mudança radical das formas de produção, acumulação e organização social que as novas tecnologias promovem?
ML – No dito capitalismo clássico, o que estava no cerne era a fabricação do objeto. Hoje, antes de fabricar o objeto é preciso fabricar o desejo e a crença. Por exemplo, vamos pensar na fabricação de um par de tênis. O calçado é produzido na China, onde o trabalho dos operários custa 2% do total. Somando o custo de tecnologia e transporte, envolvemos 50% de investimento. O restante do investimento é feito em marketing, publicidade, design, que é feito no Ocidente. O capitalismo cognitivo convive com o capitalismo clássico, a fábrica, o serviço. E há conflito entre os dois. Inclusive entre as subjetividades diferentes que vivem com capitalismos diferentes. O problema político sobre o qual é possível refletir. Não é a tecnologia que impõe. Como disse Felix Guattari, é a máquina social que produz a máquina tecnológica.
CM – O estudioso americano Jeremy Rifkin sustenta, em seu livro A era do acesso, que o capital cognitivo imaterial desempenha um papel central na criação de valor e representa o componente mais importante do capital empresarial. Segundo André Gorz, a atividade laborativa fundada no saber já não pode ser medida por horas de trabalho e observamos também que as demais relações trabalhistas tradicionais se aplicam cada vez menos. É possível supor uma nova sociedade baseada em novas relações entre capital e trabalho? Como ela seria? A economia cognitiva antecipa a necessidade de uma outra economia, de outra sociedade?
ML – Partindo de Gorz, ainda temos o conceito de trabalho fundado sobre a dinâmica do trabalho industrial, sobre o qual o indivíduo traz para a produção. Isso era necessário no início do capitalismo para fazer com que fosse possível reconhecer o que os operários traziam para a produção. Hoje, esse discurso corre o risco de se voltar contra os próprios trabalhadores. O debate que há sobre a Previdência na Europa hoje é um exemplo disso. A idéia é a de que as aposentadorias são recolhidas a partir das contribuições individuais dos próprios trabalhadores. Na medida em que o número de trabalhos diminui, o que se diz é que tem queda na Previdência. Então, é preciso aumentar o tempo de trabalho. E ninguém nunca afirma que, ao passo que diminui o número de trabalhadores empregados, aumenta a produtividade do trabalho. Se, por exemplo, temos a diminuição dos trabalhadores empregados, mas a produtividade é multiplicada por 2, a situação fica a mesma. De onde vem essa nova produtividade? Da tecnologia, do conhecimento, da inteligência, ou seja, do Capitalismo Cognitivo. Isso que não é possível mensurar em horas de trabalho. Para falar disso é preciso levar em conta as relações de poder. Na Economia Cognitiva isso já está vigorando há muito tempo. Só que as relações de poder fazem com que seja só o capital a se aproveitar disso tudo. Ou seja, está tudo organizado em cima do trabalho do indivíduo mas é o setor financeiro que captura tudo.
CM – O que significa o conceito de gestão de conhecimento no contexto do “capitalismo cognitivo”? Até que ponto a gestão do conhecimento seria uma camuflagem para formas mais sofisticadas de controle?
> ML – O novo tipo de gerência é representado pela gestão do capital humano. Cada trabalhador tem que ser o empreendedor dele mesmo. Uma ideologia que diz que cada trabalhador tem que ser responsável por ele mesmo. Se está desempregado o problema é dele. Ele tem que transformar os investimentos sociais em gastos para o capital humano. Todas as relações sociais são vistas como sendo funcionais ao aumento do capital humano do indivíduo. A escola, o serviço, a aposentadoria, a saúde, não são mais serviços sociais mas investimentos dos indivíduos e, nessa lógica, têm de ser privatizados. A forma de controle passa pelo fato de o indivíduo tornar-se explorador dele mesmo.
CM – Qual o papel das esquerdas hoje? Para onde caminha a esquerda mundial? É preciso romper com o conceito de centralidade do trabalho que permeia todo o pensamento marxista? Onde nos levará o pós-socialismo?
> ML – Posso falar só da esquerda da Europa, que continua tendo uma concepção fundada sobre o trabalho individual. Por exemplo, sobre questão do financiamento da Previdência é evidente que deveria ser pensada através de outras formas de financiamento , de capturar a riqueza social (o que o capitalismo financeiro sabe fazer muito bem!). A esquerda permanece com o conceito de produção individual, continua a defendê-lo. É a mesma coisa ao que diz respeito ao emprego. É claro que, se a produtividade ultrapassa o trabalho individual, há mais de produção excedente, que deveria, aliás, ser distribuída. Deveríamos pensar a distribuição dessa riqueza não apenas através do acesso ao emprego. O que é esquisito é que o que acontece na Europa é exatamente os setores do Capitalismo Cognitivo terem excedente de mão-de-obra com necessidade de valorização. Então, há pesquisadores demais, artistas demais, gente demais precarizada. E a única coisa que a esquerda propõe é um trabalho para todos estes “demais”, quando seria necessário propor uma Renda Universal. É por isso que lutamos! A lógica da precarização e pauperização não tem como causa apenas as políticas liberais mas essa postura da esquerda.
CM – O que o senhor tem a dizer sobre o projeto de lei, no qual trabalha atualmente na França, que contempla uma certa estabilidade social aos “Intermitentes do espetáculo”?
ML – Foi assim que surgiu o movimento dos Intermitentes do Espetáculo contra justamente o projeto de lei do ministério da Cultura da França prevendo a redução do salário-desemprego da classe cultural. Em 2002, na explosão do conflito, o ministro Aillagon, da Cultura, alegou que, como havia companhias teatrais demais, técnicos demais, cenógrafos demais, atores demais, enfim, intermitentes demais, em relação à lógica da indústria cultural, era preciso cortar o seguro desemprego. Entre as alegações, está a de que os artistas não se comportam como os empreendedores deles mesmos e usam de maneira autônoma as políticas sociais. Nestes 3 anos, estamos brigando para que não seja feita a lógica governamental que é a de eliminar 30%, cerca de 36 mil indivíduos que recebem o seguro-desemprego. Neste meio-tempo, o sindicato e a esquerda e o novo ministro, Donnedieu De Vabre, decidiram implementar a Política do Emprego Cultural. O Estado subsidia sim o indivíduo desde que ele esteja permanentemente em cartaz, em temporada, trabalhando o tempo inteiro. Veja bem: trata-se da mesma postura do ministro da Cultura Aillagon com outra aparência! Isso é o que eles chamam de “lógica do emprego”. Seja do lado do patrão ou dos que devem defender os trabalhadores, tudo aponta para a precariedade da valorização do profissional. Um mercado de trabalho em expansão, que poderia ser o do Capitalismo Cognitivo, é quebrado. Portanto, nossa luta já dura 4 anos e a reforma do Estatuto da Cultura nunca foi aplicada pois a luta impôs ao Estado um fundo para proteger esses 36 mil que tendem a ser excluídos. Amanhã [6 de dezembro] haverá nova mobilização nacional contra isso. Recentemente, foi publicado no Le Monde artigo do economista Daniel Cohen apontando que esse tratamento que é dado ao Estatuto da Cultura, de proteção dos trabalhadores, também deveria ser estendido a toda a população de empregados, que assim seriam protegidos por um salário fixo. Só assim é possível pensar uma saída para a flexibilidade do trabalho e não ir contra ela.