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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Para Nat.


“A conexão atenta consigo mesmo, com o outro e com o meio, transforma o que seria uma sucessão linear de eventos em ações-reações imediatas. A temporalidade do fluxo desconstrói as etapas do processo expressivo, digo, dilui o minúsculo espaço de tempo entre pensar e agir, entre estímulo e resposta, entre sentir e emitir. Quando em fluxo, o ator não expressa um estado, ele vibra em um estado” (p.322)


Nat, isso é o que eu gostaria de ter formulado para lhe dizer no último ensaio. Imersa na composição, em fluxo de resposta ao tempo, ao Fred e ao espaço, você não precisou criar um estado, mas vibrou em um estado único. O outro idioma, corroborou para isso em seu distanciamento. Quer dizer, por estar livre da incumbência de nos fazer compreender o que você dizia, conseguiu nos aproximar daquilo que poderia ser...da tentativa de dizer, da abertura, da sugestão de um posicionamento. Comunicou.

NA VERDADE É PARA TODOS OS ATORES.

FABIÃO, Eleonora. Corpo Cênico, Estado Cênico. IN: Revista Contrapontos Vol. 10, No3. Santa Catarina: Revista do PPG em Educação da UNIVALI, 2010.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Também andei pensando umas coisas...

A Aline de costas cantando é um ruído muito interessante. Ela está "fora de quadro", mas completamente presente. Um extra-campo que eu só tinha presenciado antes no cinema. Talvez todas essas pessoas que aparecem no espetáculo também estejam fora de quadro. Acho que dialoga muito com o texto do Rafa. Presenças desgovernadas. "Você disse algo que não entendi, mas lembro".

Pessoas falam continuamente, mas não se ouvem. Talvez as interjeições tenham um grande papel no texto. "Olha, (antes do ônibus partir...)"; "Por favor, não me interrompa!" Os imperativos também. Os atores esboçam uma ligação que não se completa. "Alô?" "Alô?" "Você está ai?" “Você está me ouvindo?” A fala abafada, pela fita crepe ou pelo jornal, também me interessa. Talvez o vídeo possa funcionar como mais um elemento que tenta estabelecer "contato". Que reforça a tentativa de comunicação. Já a campainha interrompe. Gosto disso.

Penso muito em uma projeção reprimida, desenquadrada. Recortes de uma história de não-ditos, de paixões recalcadas, de relações falidas. Pessoas que vivem “fora de quadro”. Na grande cidade. Sob a luz neon. OPEN 24H

As relações parecem transitar em corda-bamba, tão frágil é o equilíbrio. A qualquer momento algo vai romper, se perder, não ser compreendido. "Compreende?"

Fiquei pensando sobre tempo. Temporalidade. Estar. Não estar. Presente. Quanto tempo é muito tempo? "O relógio da cozinhou parou...Tá parado há dois anos." Como a gente mede o tempo? “Um cigarro e vamos” “Só mais um café”

Fred diz: "Eu to sem..." E lista uma séria de faltas, fala sobre o que não se tem. Não é sobre insatisfação, é outra coisa. Ainda não descobri.

Nati começa um riso em semi-descontrole. Fora de hora. Remete a desespero, a deboche. De qualquer forma, o riso distancia do momento anterior: a conversa na mesa com o Gunnar. Acabou. Perdeu. Ela já não está mais ali.

Quando a Marília subiu fazendo a árvore, Aline começou a cantar "quero ficar no seu corpo feito tatuagem". Desejo de permanência. De dar conta do tempo, se apropriar dele. Que talvez também implique em se apropriar do outro. Do espaço do outro. Do que existe entre um corpo e outro. Esse meio. Encontrar o outro?


quarta-feira, 7 de março de 2012

Lindalva.

- então é isso mesmo, né ? Você vai e eu fico aqui. (pausa) Sozinha.
- você fica aqui porque você quer, Lindalva. Você sabe que por mim, você iria comigo.
- e aí eu largo o meu trabalho, é isso ? Deixo pra traz a casinha que eu suei tanto pra construir, é isso mesmo ? Vou pro estrangeiro passar frio, ficar perdida naquela língua toda enrolada...
- (interrompe) Eu te ensino, minha pequena ! Eu posso ser o seu professor particular. Você fazendo biquinho vai ficar mais linda ainda.
- eu demorei 50 anos pra aprender a falar português direito e agora você me vem com essa ? Não tenho mais idade nem cabeça prá isso, meu amor. (pausa) Tô velha, sou burra, quase analfabeta...
- não fala assim, Lindalva. Eu gosto de você assim do jeitinho que você é. Olha prá mim. (pausa) Confia em mim! Vamos juntos!
- prá você é fácil. Sua família tá lá, seus amigos tão lá... lá também é o seu mundo. Mas e eu ? Quando você sair pra trabalhar eu vou ficar sozinha ? Se eu gritar por socorro será que vão entender que eu preciso é de ajuda ? Eu vou ter que precisar de você pra tudo ? E a minha liberdade ? O pagode e a cerveja aqui debaixo ? Eu não tenho dinheiro guardado. Tudo que eu tenho tá aqui: tá nessa cama que você dorme todos os dias, tá em cada tijolo dessa casa.
- não se preocupe com isso, amor. Já disse: eu vou continuar te ajudando.
- ajudar é diferente de sustentar, de bancar. Eu não quero depender de você prá tudo. Se eu precisar comprar um pão, como é que eu faço ? Eu espero pelas suas moedas ?
- lindalva, não existe isso de ‘meu’ e ‘seu’. Eu tô propondo que tudo seja ‘nosso’.
- é muito fácil pra você propor isso quando o ‘nosso’ é quase tudo ‘seu’.
- você só tá pensando no dinheiro. E o nosso amor, não é ‘nosso’ ?
- (pausa) O nosso amor é o que a gente mais tem de ‘nosso’. Mas se eu estiver no estrangeiro, eu sem saber falar uma única palavra, sem conhecer ninguém além de você, batendo queixo de tanto frio, e se a gente brigar e você não quiser olhar mais na minha cara ? Aí eu faço o que da vida ? Eu vou estar cheia de amor em mim mas e daí ? Amor não enche barriga nem esquenta do frio, meu bem. Aí se você de repente decidir me trocar por uma mais nova eu faço o que ? Dentro de mim só vai ter amor. (pausa). Lá no estrangeiro se eu vender amor será que alguém compra ?