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segunda-feira, 30 de abril de 2012

A nossa canção, por André Lemos


Sobre Cavalos e Baias

Vê... cavalgo na idéia absurda
De ser pra sempre sua e fico muda
Muda, muda, mudar por você
Perceba o vazio em um abraço
Um laço frouxo e desencantado

Perdido na loucura de ser sua,
Sempre nua, quase lua
Na tortura que flutua
O abismo em uma fissura...
O claro não se vê

Visto a minha cor em tom flagelo
Feito coice tal martelo
O cavalo em meu ego
Me persegue por prazer

Altivo e duro em sua marcha sem prazer
Passivo e nulo em sua baia sem lazer 2x

Crê, que toda confissão é um lamento
Você me disse algo que não entendo
Mas lembro, lembro, lembro, lembro...

Vê carrego então em mim a sua aposta
Um grito de suborno sem resposta

Sentindo o amor ser sempre
Duro, quase sujo, o escuro
A esperança é um sussurro
Um abrigo inseguro...
É a luz que não se vê

Visto a minha cor em tom flagelo
Feito coice tal martelo
O cavalo em meu ego
Me persegue por prazer

Altivo e duro em sua marcha sem prazer
Passivo e nulo em sua baia sem lazer 2x

Solo

Crê, que toda confissão é um lamento
Você me disse algo que não entendo
Mas lembro, lembro, lembro, lembro...

segunda-feira, 2 de abril de 2012


RECORDAÇÕES

 

Estávamos a conversar e calámo-nos de repente.
Tinha aparecido na esplanada uma rapariga, que beleza!
Demasiado bela para o nosso tranquilo veraneio ali.
Bárbara olhou apressada para o marido.
Cristina pôs instintivamente a mão sobre a mão de Zbyszek.
Eu pensei: ligo-te, espera- vou-te dizer- não venhas, acabam de anunciar vários dias de chuva. 

Só Agnieszka, viúva, saudou a bela com um sorriso.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Paolo Cugini comenta a teoria sobre o "amor líquido" de Zygmunt Bauman


"Percebemos que novos atores estão passando no palanque da história, mas não conseguimos detectá-los, tão rápida é a passagem deles." FLUXO, MOVIMENTO LATERAL, PASSAGENS

"As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram este tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar o caminho de volta (bauman, 2005b, p.9)." LINDO. Podia ser texto

"A sociedade líquida não desceu do céu, não se produziu do nada, improvisadamente, mas foi o fruto maduro do desmoronamento da modernidade, ou seja, do processo do derretimento dos sólidos formados e elaborados na modernidade." (Repare que Neon é um gás. O que dá o efeito fluorecente na luz é a retificação do ar líquido. POÉTICO! Nosso edifício em plongê, o prédio desabando, tá tudo ai.)

"No mundo fluido onde os valores são de natureza cambiante e as regras instáveis, o máximo que deve ser feito nos relacionamentos afetivos é reduzir riscos, evitar a perda de opções que se traduz na capacidade de terminar quando se deseje." (A forma de "amor"que tem aparecido nas composições)

“Como escapar à dor e a humilhação? A forma natural é matar ou humilhar seu algoz ou benfeitor. Ou encontrar outra pessoa mais fraca para triunfar sobre ela” (bauman, 2003, p. 110)." (A árvore, o touro, a derrubada)

“E os fluidos são assim chamados porque não conseguem manter uma forma por muito tempo e, ao menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças” (bauman, 2005c p. 57)."

"Permanecer fixo, com uma identidade fixa, neste mundo rápido e fluido, não é aconselhável. A liquidez exige dos indivíduos a capacidade de não se deixar identificar. Quem é identificado, é perdido."


- Esses trechos foram destacados pela Susana! Eu e ela estamos estudando, ou melhor, tentando compreender a nova face de modernidade que estamos vivendo. O Bauman ainda fala sobre pós-modernidade. Outros teóricos, transgridem o termo e vão falar em hipermodernidade. Como se a "pós" nunca, de fato, tivesse existido. Ou seja, o que foi chamado de "pós" é hoje visto como uma passagem para a "hiper". Na hipermodernidade, os valores da modernidade são revistos, mas não ignorados. Uma outra face da modernidade se revela. Acreditamos que beber um pouco nessas teorias e teóricos maravilhosos possa ajudar a "compreender"  a trajetória temática que estamos vivenciando na construção deste espetáculo. Posto aqui no blog, pois esses trechos foram muito valiosos para eu me reapropriar dos materiais, buscando, sempre, uma nova visão e compreensão deles. Espero que também possa servir para vocês. Para clarear a mente e dar mais vibração ao corpo.

ps: as partes em negrito são comentários ou grifos da Su.
ps2: quem quiser ler o artigo completo, manda um email que a gente envia!

divirtam-se.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Eu parei para pensar nisso aqui #3


O palco esta nu. Frio. Um homem entra e se posiciona na baixa da direita. Ele inicia uma série de micro-movimentos. Mãos, braços, ombros, cabeça e quadril estão engajados em comunicar alguma coisa. O que ele quer dizer. Ou melhor, o que ele tenta dizer? A sua boca balbucia palavras inaudíveis. O movimento é gradativo. O homem dança e os meus olhos dançam com ele. Direita, esquerda, direita esquerda. Tudo é circular - é o que parece que ele quer me dizer. De repente, começa a se mover com mais velocidade e o seu corpo transpira. Me perco no corpo molhado deste homem e só o abandono quando, da alta direita do palco, uma mulher surge caminhando. Ela caminha tranquila e se dirige ao centro da alta do palco. De costas para mim ela já não se move mais. O homem continua a dançar, cada vez mais rápido, e a minha atenção se divide entre o corpo dele e a mulher. Ela começa a cantar. A voz é forte e a música é triste. Quero não entender. Mas é impossível. Imediatamente busco um sentido. Concluo: é um paradoxo. Me satisfaço. A relação entre os dois, aos poucos, se transforma em um só quadro para os meus olhos. Não existem mais detalhes. Me acalmo. De supetão, o homem desenraíza os seus pés do chão e em um brusco, porém leve movimento muda o seu corpo de direção. Já não me encara mais. Alívio. Ele traça uma linha reta da direita para a esquerda baixa, cruza com outro homem e pára. Nesse pequeno deslocamento mais outras duas mulheres já entraram no palco. Infelizmente não pude acompanhar suas entradas e só as noto agora. Até o momento são três mulheres e dois homens. Duas delas estão de costas. A outra está de frente. Um dos homens olha para a esquerda. O outro olha para frente. Todos estão parados menos o primeiro homem que continua a dançar. E suar. Ele traça, novamente, uma linha reta da esquerda baixa para a esquerda alta do palco. Durante mais este deslocamento, surgem mais uma, duas pessoas. Um homem que surge e desaparece, mais ou menos umas três vezes, e mais uma mulher que entra e fica parada, olhando para a esquerda. O último homem, finalmente, decide ficar. Na rebarba de sua última entrada ainda uma última mulher adentra o palco. No total são, agora, oito pessoas. Cinco mulheres e três homens. Duas estão de costas, uma olha para frente, a outra para a esquerda e a última para a direita. Dos homens, dois olham para a esquerda e o primeiro homem, o que dá origem a esta narrativa, continua a dançar. Seriam todos eles um só corpo? O homem que dança, dança por todos? Porque diabos ele se movimenta e de onde vem toda essa angústia? Angústia?


Só agora noto que uma placa, ABERTO, pendurada em uma vara do urdimento da caixa preta, mais ou menos na média do palco, está acesa. Quer dizer, ela foi acesa, mas também não pude acompanhar e, por isso, não posso dar certeza do momento em que mais essa pequena mudança ocorreu. O homem, o primeiro, o que dança, traça agora uma linha reta da esquerda alta para a direita alta do palco. Ele passa pelas outras pessoas como quem passa por árvores ou postes ou instituições. Na direita alta do palco, aos poucos, o homem vai parando de dançar. No seu corpo, vestígios de toda a sua movimentação ainda podem ser vistos. Direita, esquerda, esquerda, direita. Tudo é circular. A mulher, a primeira, a da canção tristonha, em algum momento também parou de cantar. O primeiro homem, que já não dança mais, observa quieto as pessoas. Começa a falar. Diz algo a respeito de um velho para o homem que cruzou com ele e que olha para a esquerda. Para uma das mulheres que está de costas ele fala sobre letras e medo. Facas e rodelas é são as palavras que sobram do que ele diz para a mulher que está de frente. Para o outro homem, aquele que surgiu e desapareceu antes de ficar de vez, ele diz alguma coisa sobre um refrigerante e um olho preto. Para a mulher que olha para a direita, conta de um cara que, outro dia, lhe tinha feito uma pergunta. Perguntou se aqui tinha chovido ontem - ele diz. Já para a que olha para a esquerda o assunto perpassa o envelhecimento de nossas línguas. Ele diz algo sobre ordem e mudança. Para a outra mulher que está de costas, a primeira a entrar e a mesma que cantava a triste canção ele diz: você me disse algo que eu não entendi, mas me lembro. 


É preciso dizer que durante a fala do primeiro homem todas as outras pessoas executam micro-movimentos. Todos eles diferentes. Parece também que tentam dizer alguma coisa, contribuir com alguma informação mesmo que desnecessária. São tentativas. Penso. Penso, onde estão todas essas pessoas? Que tipo de lugar é este sombrio e sem direção? Se olham para espacialidades diferentes, o que olham? Será que necessito dessa informação? É uma rede, arrisco, mais uma vez, buscando sentido para o que vejo. A placa de aberto... Estariam todos em café? Em um restaurante? Em uma tabacaria? Que tipo de estabelecimento é este? Será mesmo que eu preciso de uma ficção? Um café, por favor - diz a mulher que olha para a esquerda. Não. Me disseram que era aqui que eu precisava vir - diz a mulher que olha para a frente. Não. É  claro que eu compro uma revista para você - diz o último homem. Não. São realmente mais sete esquinas até a beira do mar? - pergunta a segunda mulher que parou de costas. Não. Eu trouxe a xerox dos meus documentos e me disseram que eu poderia ficar - anuncia o primeiro homem que parou, olhando para a direita. Não. A mulher que olha para esquerda direta: sexo é masculino ou feminino? Não. Eu fico feliz que você tenha conseguir vir...trouxe o que eu te pedi? - indaga a primeira mulher de costas. Não.

"Ficou olhando o quadro de Edward Hopper ali na sua frente, Night life e descobriu pasmada que nunca esse quadro teve tanta significação como nessa noite. O limpo e banal café de esquina de uma rua vazia de Nova York, o café quase vazio (só três pessoas no balcão) com o empregado de uniforme branco-azulado lavando coisas debaixo da torneira, xícaras? A longa fila dos banquinhos vazios contornando o balcão, tudo visto do lado de fora, através da comprida vitrine de vidro. O silêncio sem moscas. O vidro sem poeira.E esse quadro estranhíssimo de um café noturno em alguma esquina de algum beco em Nova York. Havia vermelho, mas nesse café até a cor vermelha era fria. A solidão medíocre." ( Lygia Fagundes Telles - As Horas Nuas)

Todos no mesmo lugar. Juntos, parecem não ter para onde ir. Que imagem buscar? De que cor pintar? Gesto, fala, tudo em um novo movimento? Como prosseguir sem, tão precocemente, ou não, desmanchar o quadro, a estrutura que, penso, é bonita. Para onde ir ou o que virá depois?

são tentativas.
prossigo.

sábado, 24 de março de 2012

Para Lila

Coisas que se quebram 



mecanismos de relógio:
manejo a pinça
& cuidado,
patas de inseto: cílios
com pegadas;
pequeno, tudo parte
& corre risco, coisas
que se quebram.
& como tão
quebrados & partidos
não contamos
os resquícios, apegar-se
a todo vício de 
viver:
o que sei o
que amo, frágeis
elos da cadeia, mí-
nimos, confortos
de uma ideia & tão
no entanto
humanas
coisas que se
quebram,
que não se sabem
ou se respeitam
pactos
como esses, micros-
cópicos, não
germina amor nem
nada bom
deriva disso, tão minús-
culo impreciso de-
licado
ajuste.


Dirceu Villa

terça-feira, 13 de março de 2012

Creme de alface

Enfim, enumerou na esquina, Raul se enforcara no banheiro, cinco anos exatos amanhã, e este maldito velho com passinho de tartaruga bem na minha frente, eu tenho pressa, quero gritar que tenho muita pressa, Lucinda quebrou as duas pernas atropelada por um corcel azul três dias depois da Martinha confessar que estava grávida de três meses, e não quer casar, a putinha, desculpe, mas o senhor não quer deixar eu passar? tenho pressa, meu senhor, o telegrama, a putinha, crispou as mãos de unhas vermelhas pintadas na alça da bolsa, pivetes imundos, tinham que matar todos, venha urgente, ir como com aquele desconto de trinta por cento no salário e todos os crediários, papai muito mal pt, apoiou-se, não, não se apoiou, não havia onde se apoiar, apenas pensou no apoio de alguma coisa sólida que não estava ali, havia só os corpos, centenas deles indo e vindo pela avenida, ela roçando contra as carnes suadas, sujas, as gosmas nas lentes dos óculos, como se não bastasse a tia Luiza agora que nem criancinha, mijando nas calças, brincando de boneca, dá licença, minha senhora, tenho seis crediários para pagar ainda hoje sem falta, aqueles jornais cheios de horrores, aqueles negrinhos gritando loterias, porcarias, aquele barulho das britadeiras furando o concreto, naquele dia, a fumaça negra dos ônibus e eu de blusa branca, a idiota, introduzindo devagar a chave na porta do, apartamento de Arthur, buquê de crisântemos na outra mão, uma hora tão inesperada, e tão inesperados os crisântemos, a senhora não vai andar mesmo? o sinal já abriu faz horas, só uma cretina seria capaz de trazer duas crianças ao centro da cidade a esta hora, ele jamais poderia imaginar, o ruído leve da chave abrindo a porta, animal, por que não olha onde pisa? atravessar a sala na ponta dos pés, abrir a porta do quarto e de repente a bunda nua de Arthur subindo e descendo sobre o par de coxas escancaradas da empregadinha, meu deus, mulatinha ordinária, se pelo menos fosse uma profissional, eu podia entender, eu não podia entender, vomitou no elevador sobre os crisântemos amarelos, não, não sei onde é a Casa Oriente, pergunte para o guarda, agora ele vai morrer, será castigo? câncer no baço, nunca mais seu cheiro de cavalo limpo, nunca mais o peso e os pêlos de seu peito sobre meus seios quase murchos, a putinha, a mulatinha vadia, por isso me olhava com aquele ar superior, ainda por cima esse calor absurdo em pleno inverno, o eixo da Terra, dizem, a estufa, o ozônio, tudo um horror, em dez anos estaremos todos surdos, cegos, envenenados, as lãs do começo do dia vertendo suores entre as pernas, como é que uma gorda dessas pode sair à rua ao lado de outra gorda ainda mais larga? fazem de tudo para atravancar o movimento alheio, se pelo menos tivessem avisado a gente, você não vai me vencer, ouviu bem sua vida de merda? eu vou ganhar de você no braço na raça e quem se meter no meu caminho eu mato, sem falar no Marquinhos o tempo todo enfiando aquelas coisas nas veias, roubando coisas pra comprar a droga, e sou eu sozinha quem carrega todo esse peso nas costas, isso ninguém percebe, ninguém valoriza, não, eu não nasci para viver neste tempo, sensível demais, no colégio já diziam, certo talento pra dança, eu tinha, e a Lia Augusta agora querendo ser modelo, fortunas naquelas fotos, não tenho nada com isso mas falei assim pra lolanda, bem na cara dela: é tudo puta, o senhor por favor poderia fazer o obséquio de tirar o cotovelo da minha barriga? porque precisa ser super-humana, vocês estão me entendendo, seus porcos, boiada, manada, desviou com nojo do velho, a pústula exposta, vai pedir dinheiro na Secretaria da Fazenda, já cansei de dizer que mendigo é problema social, não pessoal, a cadela da Rosemari bebendo cada vez mais, meio litro de uísque até o meio-dia, depressão, ela diz, no meu tempo isso tinha outro nome, pouca-vergonha era como se chamava, este fio fino de arame atravessado na minha testa, de têmpora a têmpora, vibrando sem parar, é preciso sim ser biônica, atômica, supersônica, eletrônica, vocês pensam que eu sou de ferro?

Quando ia começar a rir alto parada na esquina, viu a bilheteria do cinema, a franja de Jane Fonda, imaginou a temperatura amena, o escuro macio na medida exata entre o seco e o úmido e pelo menos, decidiu olhando o relógio, ainda dá tempo, os crediários podem esperar, pelo menos duas horas santas limpas boas de uma outra vida que não a minha, a tua, a dela, a nossa, uma vida em que tudo termina bem.
Foi então que a menina segurou seu braço pedindo um troquinho pelo amor de deus pro meu irmãozinho que tá no hospital desenganado, pra minha mãezinha que tá na cama entrevada, tia. Ela disse não tenho, crispando as unhas vermelhas na alça da bolsa enquanto puxava a entrada do outro lado do vidro da bilheteria. A menina insistia só um troquinho pro meu irmãozinho e pra minha mãezinha, moça bonita, tão perfumada. Ela repetiu não tenho e de novo não tenho, mas a menina olhava o troco pedindo cinqüenta centavinhos, uma tia tão bonita, eu tô com tanta fome e o meu irmãozinho desenganado no hospital e a minha mãezinha entrevada em casa, eu que cuido. Ela gritou não tenho porra, e foi tentando andar em direção à porta do cinema, não me enche o saco, caralho, em volta os outros olhavam, e não me chama de tia, mas a menina não largava seu braço. Assim: ela segurando com força a alça da bolsa fechada enquanto tentava andar, e sem querer arrastando a menina que não parava de pedir. Ela sacudiu com força o braço como quem quer se livrar de um bicho, uma coisa suja grudada, enleada, e foi então que a menina cravou fundo as unhas no seu braço e gritou bem alto, todo mundo ouvindo apesar do barulho dos carros, dos ônibus, dos camelôs, das britadeiras, a menina gritou: sua puta sua vaca sua rica fudida lazarenta vai morrer toda podre. Tão exato, subitamente. Inesperado, perfeito. Mais contração que gesto. Mais reflexo que movimento. Como um passo de dança ensaiado, repetido, estudado. E executado agora, em plenitude. Ela ergueu a perna direita e, com o joelho, pelo estômago, jogou a menina contra a parede. A menina escorregou gritando cadela filha da puta rica nojenta vai morrer toda podre. Mas tantos carros passando e tanto barulho mas tanto tanto, justificaria depois, à noite, na mesa do jantar, bem natural, servindo a sopa ainda não decidira se de ervilhas ou aspargos, sabem, hoje me aconteceu uma coisa que, tudo vibrando tanto, tudo se movendo tanto, tudo girando tanto, esse arame atravessado na minha testa, uma coroa de espinhos. Certeira, com a ponta fina da bota acertou várias vezes as pernas da menina caída. Alonga e contrai e bate e volta e alonga e contrai e bate e volta: exatamente como numa dança, certo talento, todos diziam.
Mas não esperou pelo sangue. Afastou as pessoas em volta com os cotovelos, só o tempo de comprar um pacote de pipocas, para afundar naquele escuro exato, nem úmido nem seco, em tempo ainda de ver no espelho da sala-de-espera uma cara de mulher quase moça, cabelos empastados de suor, roxas olheiras fundas e mãos de unhas vermelhas pintadas crispadas com força na alça da bolsa.
Quase uma assassina, não pensou, meu deus, quase uma criminosa, espalhando-se sem horror na poltrona no momento em que as luzes começavam a diminuir. Apertou a bolsa no colo, puxou com as unhas, para baixo, a gola alta arranhando o pescoço, cheiro de bicho, sentiu, cheiro meu de bicho eu brotando do meio dos meus seios quase murchos, seis crediários e esse dinheiro por um filme que nem sei direito, Arthur deve estar morrendo mais um pouco agora, os cabelos finos e frágeis da quimioterapia. Ah, se enforcar feito Raul, se deixar atropelar igual Lucinda, regredir como tia Luiza, emprenhar que nem Martinha, trair como Arthur, se drogar igual Marquinhos, beber feito Rosemari, virar puta que nem Lia Augusta: biônica atômica supersônica eletrônica — catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo um fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda num subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre por dentro, por fora. O bico da bota ardia querendo mais, cinco anos no fundo de uma cama, e de repente o contato do joelho quente de uma perna estendendo-se da poltrona ao lado, tentou prestar atenção nas imagens, a silhueta das cabeças, meu deus, que boca tem a Jane Fonda, pensou em mudar de lugar, mas tão cansada, um oceano de paz, e antes de decidir arriscou um olho para o nariz poderoso do macho ao lado desenhado no escuro a seu lado, e suspirou mole, por que não, ninguém vai saber, cadela gorda no cio afundada cada vez mais na poltrona, a boca cheia de pipocas. Pouco antes de abrir as pemas deixando os dedos dele subirem pelas coxas, bem devagar, para não assustá-lo, ainda esfregou as palmas secas das mãos uma contra a outra, tão ásperas, o espelho da sala de espera, uma lixa, que pele meu deus tem a Jane Fonda, o lixo das mas e o roxo das olheiras tão fundas, mas tão fundas pensou acariciando o rosto enquanto um dedo dele entrava mais fundo, tão fundas que resolveu, eu mereço, danem-se os crediários, custe o que custar saindo daqui vou comprar imediatamente um bom creme de alface.

Caio Fernando Abreu

Eu parei para pensar nisso aqui # 2

Sobre o início. Levar todos para o chão, no momento, não funciona. Me parece cedo demais, sujo demais e bruto demais. Uma pena. Uma imagem com um potencial enorme...Bom, podemos encontrar depois um espaço para ela. Um espaço que a receba melhor....de forma mais harmônica. OI? Quem falou em harmonia? Risos e esqueçam essa palavrinha. 

No movimento de abandonar esta ideia de tentativa, o que mais me dói é a perda do recurso da repetição. Ou seja, como excluímos essa imagem (movimento) e continuamos a expor ao espectador um novo início, a retomada de um ciclo ou coisa parecida? No caminho para casa, conversando com a Su, me veio uma ideia. A ideia de deslocarmos a utilização do recurso da repetição para depois do prólogo. 

Informo: entendo como prólogo neste texto a dancinha do Rafa e o lamento da Aline. Só até aí.

Volto. Se tiramos a repetição do prólogo e a transferimos para o que vem depois dele, ganhamos uma nova saída para o que venho propondo, ao mesmo tempo, que não abandonamos o recurso. Explico. Todos entram , se posicionam e o Rafa tenta nos convencer, enquanto espectadores, do texto que diz. Tenta nos convencer de alguma realidade possível, da existência de personagens e pequenos dramas que podem, ou não, ganhar espaço e visão ao longo da narrativa. Vamos ouvindo e tentando entender, juntamos sexo com faca, beijo com salame, aqui com vazio, medo com letra, vamos indo...tentando. Fim do texto do Rafa. Troca 1. Se depois da troca 1, um outro ator ocupa o lugar do Rafa com um novo texto e, mais uma vez, tentar nos convencer de uma realidade ficcional, ganhamos no recurso e também no desenvolvimento da narrativa. Este outro ator pode trazer um texto que desminta, sublinhe ou reconfigure as imagens sugeridas pelas palavras ditas pelo Rafa. Em nova formação espacial, somos convidados a navegar neste grande emaranhado de histórias possíveis. Pequenas vitrines. Neste momento, a visão que temos dos micro-movimentos já pode ser outra...precisamos entender de que forma. De que forma? Na velocidade, na duração, na qualidade, na repetição ou no acréscimo de outra micro-informação? Essa nova forma, atrelada ao novo texto, intensifica o trabalho dos espectadores que precisam trabalhar junto com a obra. Juntar as peças. Até este dado momento, a encenação é linear, clara. Mas o seu entendimento pode não ser. Talvez, mais do que como imagem imposta ou recurso de exposição dramática, o fragmento surja como necessidade interpretativa da parte de quem olha, assiste. Se somos um, e neste um somos capazes de ser cento e um, não estamos desconstruindo, ainda, nada. Estamos, através de uma lente de aumento, redimensionando partes, detalhes escolhas. Não sei...mas me parece que devemos tentar.

Essa tentativa pode gerar um futuro interessante para este jogo inicial. Pensando que a cada troca, um novo narrador surge, quando o jogo se esgota? Quando -  do texto -  resta apenas uma palavra? Quando as informações se juntam e tcham começa daqui, outro dali e seguimos em frente? Vamos arriscar?

Observações:

- estou em busca de um novo texto que se assemelhe com o do Pavlovsky. Nem muito aberto, nem muito fechado. Com a aparição de pessoas, pequenos causos e, quem sabe até, confissões. Ou isso já sou eu também tentando compreender as palavras deste gênio argentino. Quem puder ajudar...por favor.

- me ocorreu que da vertical podemos ir ao solo no comando do dominador e do dominado. Solução super simples, mas se bem inserida, com um potencial dramático super interessante. Talvez, seja este um caminho.

- caminho: material zero. um lamento. tudo dói. tudo chora. são pessoas. seres humanos. são falências, amores perdidos, desencontros para novos encontros. são cidades, pinos, alegorias. são repetições de um mesmo tema, um mesmo dilema. são porcos, sujos, que se atropelam, se julgam e, sem saber, se desgastam. disputam. dominam o outro. sobem em cima. quem manda aqui? discutem, interrogam, brigam. são animais. humanimais. coice, touro, coice, banda, coice, árvore. depois se lavam. não porque ainda se amam, mas porque não podem ir embora com o corpo carregado, culpado. é um fato. é real.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Sugestão de texto para o Rafa #2

"A única coisa que a admiro é a intensidade do desespero o momento mais sublime... (...) penso não se dão conta da inutilidade dos gestos penso esse pobre homem parado com seu joelho direito dobrado e calcanhar na parede está assobiando vejo-o tocar seus genitais com dissimulação e penso o que irá fazer agora? caminha uns metros exatamente mais três abraça outro homem sem ter consciência do desespero do momento... (...) Conheço uma amiga que tem uma amiga que não pode ler porque tem medo do vazio entre as letras. Medo de cair... Creio que sim - cair pelo vazio das letras. Tem medo. Terminou empregando-se em uma delicatessen - cortava salame com uma faca grossa. Ficava aliviada ao sentir a densidade do salame cortado por uma faca grossa - Um dia o dono da delicatessen lhe disse que ia ser mais fácil para ela cortar o salame em rodelas na máquina. Mas então o salame cortado na máquina caía rápido demais - sentia que ela caía no vazio toda vez que a máquina cortava as rodelas de salame. (...) Estamos todos tão grudados e imprensados que outro dia ao abrir um refrigerante dei uma cotovelada no senhor que estava ao lado foi ultra incômodo porque deixei seu olho preto. Conto os dias e voltamos isto é infernal e todos contentes! Um cara me fez uma pergunta que conservo em minha memória por ser a única coisa falada entre nós me perguntou se aqui tinha chovido de manhã. Nunca soube o que queria dizer com aqui. Se ele se referia ao meu pequeno espaço de minhas intimidades, ou talvez se referia a algum território mais amplo que já não posso reconhecer - mas que talvez ele imaginasse perto de mim. Não creio - não sei - que ele estivesse se referindo a cidades ou localidades que há tempo não fazem parte de meu mundo - ou de meu interesse. Eu só posso falar de mim. (...) Nós nos demos um beijo intenso - com a intensidade de outras épocas milenárias - minha língua recobrava sensibilidades perdidas - às vezes as línguas envelhecem também - e vão perdendo a sensibilidade - ficam senis - não perdem nem poder nem força mas sensibilidade beija-se o que for. (...) Ouviu alguém dizer que isto não podia continuar assim -  tinha que parar a coisa - impor ordem - um pouco de ordem. Você me disse algo que não entendi mas que lembro... "


A Morte de Marguerite Duras, de Eduardo Pavlovsky

ps: boa parte desta dramaturgia do Pavlovsky não trabalha com a pontuação ''correta''. Mantive os trechos selecionados como no original.

Sugestão de texto para o Rafa

Guia Semanal de Ideias


Segunda

Não achei a Távora mas vi o King Kong na
pracinha. Análise. Leu-se e comentou-se que o
regime não vai cair. Clímax alencariano das Duas
Vidas.

Terça
Parque Lage com Patinho. Yoga. Sopa chez avó.
Di do Glauber. Traduzi 5 p de masturbação até
encher o saco.

Quarta
Fingi que não era aniversário. Almoço em
família. Saidinhas à tarde com e sem Tutu. Não
me aclamaram no colégio como se esperava. Saí
deixando pistas com a psicóloga.

Quinta
Passei para os alunos redação com narrador
sarcástico. Último capítulo de Duas Vidas.
Encontro PQ na portaria e vamos ao chinês.
Conversa de cerca-lourenço, para inglês não ver.

Sexta
Bebericamos depois do filme polonês. Quarto
recendendo a chulé e sutiã. Guardados. Voltei no
aperto, mas não tão mole.

Sábado
Cartas de Paris. Disfarcei-me de nariz para
enganar PQ. Casas da Banha. Cheguei cedo,
parei em frente à banca das panelas.

Domingo
Lauto café à beira-mar. Mímicas no ônibus.
Emoção exagerada, demais, imotivada. Dildo
ligou, pobre. Darei bola? Anoto no diário
versinhos de Álvares de Azevedo. Eu morro, eu
morro, leviana sem dó, por que mentias. Meu
desejo? Era ser… Boiar (como um cadáver) na
existência! Mas como sou chorão, deixai que
gema. Penso em presentinhos, novos
desmentidos, novos ricos beijos, sonatilhas.
Continuo melada por dentro.


Ana Cristina César

quarta-feira, 7 de março de 2012

Eu parei para pensar nisso aqui.

A ideia de usar a "dancinha" do Rafa como prólogo do espetáculo me atravessou hoje no percurso de casa para o ensaio. Experimentar a ideia foi bastante interessante... Eu diria fascinante. Escrevo para tentar compreender melhor o que ela inaugura e também para dividir com vocês os meus pensamentos. A "dancinha" enquanto abertura se manifesta como algo que eu poderia classificar como nível zero. Ou seja, ela abre espaço para que qualquer tipo de informação ou material sejam apresentados depois.  Ela é o drama neutro que abre as portas para novos e interligados dramas sujos. Ela namora, critica, brinca com o corpo e com o espaço na suavidade de um deboche que é físico. Ela esboça, com crueldade e um ótimo uso do corpo e do tempo, as qualidades: duração, repetição, esforço, precisão e refinamento. Ela, ao mesmo tempo que recebe, também distancia o espectador da obra, faz com que ele se interrogue sobre o que virá depois. Faz com que ele se pergunte, assim como eu venho me perguntando: sobre o que e sobre quem este espetáculo fala? Então, leio a "dancinha" como um lugar poético para a fuga cotidiana, para o desbravamento do corpo em seu limite e suor, para a fuga das relações cansadas e da estranheza que é ser um ser casal; como uma espécie de espelho social, uma viagem do micro ao macro, o caminho das pedras a ser percorrido por todos os corpos que, logo em seguida, serão apresentados. Leio como quem lê um romance longo, faz uma viagem para Lisboa ou toma um bom café da manhã. Como quando preparamos o espectador para despertar, para acordar o corpo, abrir os olhos e atentar a escuta para os mínimos detalhes. Os olhos que se movem, a boca que esboça palavras ou números, as mãos que dedilham, os cotovelos que brincam  no ar de ir e voltar. Gosto da "dancinha" em razão de sua pureza urbana e nada bucólica. Por ora penso em treino de dança, bailarinos em movimento que tentam atingir a perfeição na execução de um gesto banal. Como é difícil presentar o cotidiano, a ação básica de mover-se no dia a dia. Depois penso no corpo-máquina, no homem-bomba, no cansaço dos operários na repetição diária do trabalho mal pago. Aí penso nas relações de poder, na flexibilização delas, nas lacunas que deixam abertas e que precisamos ocupar. Penso ainda nas verdadeiras empresas que são os relacionamentos afetivos, na manutenção do bem-amado, do bem-querer. É bom o bem-casado? Você trouxe o que eu te pedi - ele pergunta e ela dança. Rio alto. Na verdade, tenho medo de rir. Tem graça ver alguém cansado? Me questiono. Questiono a obra e seu lugar. Depois dela, da "dancinha" alguém entra e, de costas, canta uma música. Essa música então ressignifica tudo. Ou melhor, ela tenta. Tenta por ordem no recinto, trazer sentido e razão para todo aquele alvoroço contido que, inicialmente, foi apresentado. A música embala o Rafa que, inconscientemente, micro-muda a qualidade de seus movimentos. Agora eu não sei mais quem dança... É ele quem comanda a música ou por ela é comandado? Quem ali, no auge daquela dor, canta para quem? Quem teria coragem de denunciar: FOCO, SUPORTE. Não sei. Este não-saber me alegra, prossigo vivo, questionando o espaço, tudo e todos. Todos entram. Aí, acabou chorare, mas não ficou tudo lindo. É pior, é grave. São mais pessoas, mais gente, mais povo, mais corpos e mais cabeças. Tudo Dói, Caetano batizou uma canção com este nome e, em seguida, lhe deu de presente para a Gal.