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terça-feira, 10 de abril de 2012

e você não percebeu.

- sabe o que eu tava pensando?
- o quê?
- o relógio da cozinha. ele parou.
- por quê? tá sem pilha?
- não. tá parado há dois anos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Recado ao Senhor 903

“Vizinho,

Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito a repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor; é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21h45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois as 8h15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará ate o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada: e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio. [...]"

Rubem Braga

sábado, 17 de março de 2012

Um diálogo

Resolvi dar uma olhada em emails meus antigos e me deparei com alguns contos e textos que recebia de um amigo que conheci quando fui para o Maranhão. Ele é escritor, mas nunca mais nos correspondemos. Ele escreve umas coisas bem interessantes, e achei que poderia ser legal colocar algumas aqui. O monólogo então...


"De que falavam os móveis?

Posto que cheguei agora, do que é que eles

falavam, hein?

Por que a condição para participar da conversa é entender o assunto, vocês não acham?

Você falava de quê?

Nada?

E você disse o quê?

Nada também?

E ele, não opinou sobre isso?

Opinou?

E o quê que ele disse?

Nada?

Agora comecei a pegar o fio do discurso, nunca que eu imaginaria que a cadeira reagiria dessa forma, vão me dizer que vocês ficaram calados?

Não disseram nada?

Pois era pra dizer! Se eu tivesse estado lá, eu falaria! Porque eu cansei de falar para vocês que não dizer nada é muito diferente de dizer nada, porra! Não se pode ficar calado, calado jamais! E o que vocês me dizem?

Nada? ... Que bom saber que vocês entenderam...

Ah... não se preocupe pelo fato de eu, antes de você chegar, estar falando com os móveis...

Sabe o que a gente tem de melhor a se fazer nestes tempos de vacas magras?

(Não deixando que Nikolai respondesse) Nada!

Pense bem, nada! Risos

Uma vez olhei na TV um Anão com o pau de 24cm, acredita? Gabava-se o troglodita, de forma até a fazer raiva, daquele bendito pau... O programa foi passando e enrolando, o anão petulante dizia: não existe um homem que tenha um pau maior do que meu, e blá,blá,blá... Até que, enfim, ele mostrou a rôla... (Ele faz com as mãos o comprimento do pênis do anão). Que coisa monstruosa! (Enfático) um senhor caralho, meu amigo! Um senhor caralho!

As pessoas, de imediato, fizeram um silêncio catatônico... Mas um silêncio... Da mesma forma com que se depara com uma obra de arte - tipo o Teto da Capela de Sistina, de Michelangelo - e se calam atônitas mediante a obra de arte estonteante... Não... Não que o caralho do anão fosse uma obra de arte, mas não deixava de ser obra de Deus... (Rindo) Convenhamos! (Pausa) Eu me pergunto se esses programas de TV seriam a verdadeira arte moderna, mas esqueça! Eu sempre me esqueço o que é a arte moderna...

Eu te flagrei fazendo nada no momento em que eu nada fazia, se o ‘fazer nada’ fosse inútil, o que seria da nossa prosa? Não há nada melhor do que estar aqui sentado ao seu lado neste laconismo que nos cerca, provendo apenas deste silêncio orgânico de batimentos cardíacos! Saiba que ser homem tem suas vantagens, uma delas é agir como um ruminante e não ser obrigado a comer capim... Diga-me, por que eu e você, sentados aqui, com a única preocupação de olhar pra esta janela, iríamos nos levantar, sair deste recinto e jogar uma pedra na vidraça?! Por que não podemos? É claro que nós podemos! Mas o que seria da prosa?

Pense na prosa, Nikolai!"

segunda-feira, 12 de março de 2012

Ano Passado em Marienbad



O ensaio de hoje me lembrou muito esse filme.

Um grande hotel,

exuberante, barroco,

suntuosa, mas friamente, decorado.

Um estranho perambula de quarto em quarto,

percorrendo corredores infindáveis,

em busca... de uma mulher.

Ele conta a ela de quando eles se encontraram...

ano passado...

"Pense mais uma vez".

No caso de amor apaixonado deles.

Ele está de volta para um encontro...

para levá-la consigo.

Mas ela alega não conhecê-lo.

"Mas eu nunca fui a Frederiksbad."

Ele insiste. Ela resiste.

"Em que quarto? Eu nunca fui a nenhum quarto com você".

"Você não quer se lembrar."

"Você está com medo."

"E você nunca viu esta foto?"

Ela lentamente se rende. Solene, confidente, ele relembra os fatos.

Quem está certo? Quem está mentindo?

Seria ele um sedutor ou um maníaco? Ou teria ele confundido duas pessoas diferentes?

O que realmente aconteceu ano passado?

quarta-feira, 7 de março de 2012

Para uma avenca partindo

- Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas  coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente , entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando o meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos dos cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que eu estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra coisa, de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o seu relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez, samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que eu estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é a minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que queria te dizer,  pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que eu estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir  que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas essas coisas, é por isso que eu estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavas, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que eu estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos pra quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê. 

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de março de 2012

Para Bel.


Bel, compadecemos dessa dor. Acho de uma beleza única este material. Vamos pensar sobre ele? Partiturar? Experimentar partes em jogo? Desenvolver? Que bela citação, que bela consideração sobre aquilo que se move sem rédea e em direção ao nada. Vamos a luta!

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59

Para Nat e Cacá.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Se puderem, perguntem ao pó:


Uma contribuição para Cacá e Gunnar. Ao meu ver, bons caminhos para o desdobramento da relação já iniciada no diálogo de "Uma linda mulher". Possíveis brechas, possíveis encontros e desencontros. Gosto, especialmente, dos diálogos curtos e do fluxo de pensamento da personagem masculina. Gosto, também e ainda mais, da forma como a personagem se coloca em relação ao corpo da Camilla e a maneira sexual e instigante de como a descreve.


AQUI:

Uma noite, atendi a uma batida na porta e lá estava ela.

- Camilla!

Entrou e sentou-se na cama, com algo debaixo do braço, um maço de papéis. Olhou para o meu quarto: então era aqui que eu vivia. Ela se perguntara sobre o local onde eu morava. Levantou-se e caminhou, olhando pela janela, dando voltas no quarto, bela garota, Camilla, cabelos escuros cálidos, e eu fiquei de pé e a observei. Mas por que viera? Sentiu minha pergunta, sentou-se na cama e sorriu para mim.

- Arturo - falou. - Por que brigamos o tempo todo?

Eu não sabia. Falei algo sobre temperamentos, mas ela sacudiu a cabeça e cruzou os joelhos, e uma sensação de suas belas coxas sendo alçadas ficou marcada na minha mente, uma sensação densa e sufocante, desejo  quente e luxuriante de tomá-las em minhas mãos. Cada movimento que ela fazia, o suave giro do pescoço, os grandes seios inflando-se debaixo do guarda-pó, as belas mãos sobre a cama, os dedos estendidos. Estas coisas me perturbavam, um peso doce e dolorido me arrastando para um estupor. Então o som de sua voz, contido, sugerindo zombaria, uma voz que falava ao meu sangue e aos meus ossos. Lembrei-me da paz daquelas últimas semanas, parecera tão irreal, fora um hipnotismo que eu mesmo criara, porque isto era estar vivo, estar olhando para os olhos negros de Camilla, confrontando seu desdém com esperança e uma lascívia descarada.

(...)

- Como vão todos os seus outros namorados? - falei. 

Disse aquilo sem pensar. Me arrependi na hora. Amaciei com um sorriso. Os cantos de sua boca reagiram, mas com um esforço.

- Não tenho namorados - disse.

- Claro - falei, com uma leve pincelada de sarcasmo. Claro, eu entendo. Perdoe-me um comentário irrefletido.
Ficou silenciosa por um tempo. Fingi que estava assobiando. Então ela falou:

- Por que é tão mesquinho?

- Mesquinho? - falei. - Minha querida garota, sou tão amigo de homem quanto de besta. Não há uma gota de inimizade no meu mundo. Afinal, você não pode ser mesquinho e um grande escritor. Seus olhos caçoaram de mim.

- Você é um grande escritor?

- É uma coisa que você jamais vai saber.

(...)

- Olá - disse.

- Olá, estúpida - respondi.

- Trabalhando?

- O que acha? - falei.

- Zangado? - disse.

- Não, apenas desgostoso.

- Comigo?

- Naturalmente - eu disse.

(...)

- Com medo? - disse ela.

- De você? - eu ri.

- Está com medo - disse ela.

- Não, não estou.

Abriu os braços e toda ela parecia aberta para mim, mas aquilo só
me fez fechar-me ainda mais, levando comigo a imagem dela naquela
ocasião, como estava viçosa e macia.

- Veja - falei. - Estou ocupado. 

- Está com medo também.

- Do quê?

- De mim.

- Imagine...

Silêncio.

- Há algo errado com você - ela disse.

- O quê?

- Você é veado.

Levantei-me e fiquei de pé ao lado dela.

- É mentira - disse.


* Fragmentos de "Pergunte ao pó" de John Fante. Ed. José Olympio, 2011, 10 edição.
* Uma contribuição de Otávio Borba.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Outro diálogo

Wallace: Nascido há 43 anos em Madagascar de pai médico militar e mãe sem profissão ambos falecidos casado uma filha último emprego diretor de vendas nos Estabelecimentos Bergognan o senhor não tem títulos universitários

Fage: Não senhor nada de canudos todos os meus títulos foram conquistados na vida Meus títulos são o lucro da empresa multiplicados por dois a cada três anos durante dez anos é uma receita multiplicada por 15 enquanto meus concorrentes estagnavam É a organização que deixo atrás de mim sólida pronta para enfrentar qualquer coisa é o ambiente que eu criei Um ambiente estimulante um ambiente fraternal que faz com que para cada um dos meus homens os interesses da empresa venham antes de qualquer coisa quando eu dizia vamos então íamos quando eu dizia é assim então era assim

Wallace: Quanto ganhava?

Fage: Com todas as comissões chegava a 91.000 bruto por ano

Wallace: E o senhor está pedindo

Fage: Para mim o salário não é o fator mais importante o que procuro antes de mais nada

Wallace: Apesar de tudo as pessoas na sua idade não se demitem sem mais nem menos sem garantir a retaguarda

Fage: De tanto fazer o que é razoável perde-se a dignidade

Wallace: Então explique

Fage: Ah uma história banal venda da empresa porque funcionava bem demais americanos que não entendem nada teria sido necessário que eu aceitasse continuar a trabalhar nessa firma onde tudo o que construí estava sendo desmontado

Wallace: Sua demissão teve de alguma forma para o senhor o valor de uma mensagem

Fage: Por que a gente trabalha? Para ganhar a vida? Mas que vida? Eu sei que a gente precisa ter uma ocupação eu vou me ocupar agora olhando este grão de poeira

Diálogo da peça: A procura de emprego- Michel Vinaver

(Wallace: Diretor de recursos humanos da CIVA/ Fage: Desempregado/ possível candidato a CIVA)

Wallace: A sua mulher o acompanha?

Fage: Raramente ela esquia um pouquinho não muito

Wallace: Eu não faço muito esqui de pistas mas passeios

Fage: Nós também fazemos verdadeiras façanhas passar a noite nos refúgios dias inteiros na total ah eu o levaria com prazer conheço trilhas que poucos conhecem

Wallace: Descobri no ano passado alguns recantos quem sabe não teremos a oportunidade mas para o senhor é uma verdadeira paixão

Fage: Quando se leva uma vida como a minha

Wallace: Acelerada

Fage: O esqui é uma ruptura com tudo o que é confuso e mesquinho é se libertar da gravidade voar penetrar-se no desconhecido controlamos todos os músculos há uma espécie de harmonia entre a imensidão que nos envolve e o interior do corpo e é a minha filha com ela nos esquis somos unidos formamos uma dupla célebre em Courchevel ah o Fage e a filha dele

Wallace: A que hora costuma acordar?

Fage: Cedo estou de pé entre cinco e seis

Wallace: O que faz entre o momento que se levanta e o momento em que sai para o escritório?

Fage: Desculpe mas não estou entendendo

Wallace: Sou eu que me desculpo se a minha pergunta não foi clara

Fage: Tomo um banho

Wallace: Muito bom quente?

Fage: Morno debaixo do chuveiro recapitulo tudo o que vou ter que fazer durante o dia

Wallace: Fica muito tempo debaixo do chuveiro?

Fage:Estou esquecendo na verdade antes de tomar banho

Wallace: Ah

Fage: Claro faço ginástica começo pela saudação ao sol é um movimento de ioga muito simples que permite desabrochar uma maneira de tomar o impulso do dia

Wallace: Antes de se barbear?

Fage: Não consigo fazer a barba antes de minha xícara de café

Wallace: O senhor pratica ioga?

Fage: Encontrei esse movimento num programa de TV achei curioso experimentei

Wallace: Estávamos no banho

Fage: Desculpe no banho muitas vezes eu descubro a solução de meus problemas as decisões irrompem chego a esquecer o tempo isso até que um escarcéu na porta me traga de volta e é a minha filha Nathalie querendo usar o banheiro antes de ir à escola

Wallace: Se esse Mulawa quiser casar com a sua filha?

Fage: Nathalie tem dezesseis anos e aliás ela não quer saber de casamento nem de aborto.

Wallace: E o senhor?

Fage: Tem filhos o senhor?

Wallace: Se o pai fosse branco

Fage: E talvez pense que eu sou racista?

Wallace: É interessante no seu caso essa passividade assim como se deixou reduzir a pó na empresa do Bergognan

Fage: Como?

Wallace: Eles lhe pediram para baixar as calças e depois para andar de quatro com  a bunda empinada e foi o que o senhor fez

Fage: Como?

Wallace: Sou eu quem lhe pergunto não foi por covardia congênita até pode se dizer que o senhor tem uma personalidade corajosa foi a necessidade de se sentir protegido o senhor tem alguma coisa infantil

Fage: Eu lhe asseguro que fiquei aliviado quando acabou

Wallace: Exatamente deixou que eles fizessem o que o senhor sabia que devia fazer mas não ousava fazer  o senhor se aliviou como bem disse

Fage: Esses rapazes que recrutei formei com eles eu tinha uma responsabilidade

Wallace: E o senhor tenta encontrar na sua noção de dever um álibi para a sua covardia o que aliás duplica a covardia

Fage: Senhor eu tenho um outro encontro

Wallace: Sente-se

Fage: Engula suas palavras

Wallace: Vamos quieto

Fage: Você também cala a sua boca

Wallace: Bem estou anotando suas diferentes reações capacidade de aguentar golpes controle sobre si arroubo de dignidade



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Boa Vida



Duas senhoras dinamarquesas - mãe e filha - residem no ensolarado litoral português. Durante suas vidas, elas tiveram dinheiro suficiente para viver a boa vida: trabalho zero combinado a todo o tipo de prazer. Mas elas têm um problema: a fortuna acabou.

A Boa Vida é um documentário sobre como ser pobre quando você está acostumado a ser rico. Através dessa história simples, o filme desdobra um complexo conto sobre o inevitável destino de um família, sobre status e dinheiro, sobre eventos cruciais na história europeia, e sobre uma menina que cresceu acreditando que dinheiro cresce em árvores.

"Você não me preparou para nada disso. Eu fui criada para herdar montanhas de dinheiro, e elas não estão aqui."

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quem não faz poeira come poeira.


(Fragmentos desorganizados do livro de André Ranschburg: Histórias de um homem de marketing que faz dinheiro e sucesso fabricando jeans.)

O captalismo é um jogo. “Meta” não é objetivo do capitalismo. Foi do comunismo. Faz poeira quem vai na frente. Quem vem depois, faça a poeira que fizer, come poeira dos que puxam a corrida. Qualquer corrida.


                       ______Moral da história_____

O preço do comando correto é a plena liberdade.

A luta é entre fracos e fortes. Entre os que podem e os outros.

Ser bom é enfrentar brinde com brinde.

Sem mapa-múndi , globalização vira jogo de labirinto.

Para escolher um sócio, basta escolher o parceiro certo, no tempo certo.

Confiar em terceiros é desconfiar de segundos.

Filosofia participativa só vale para quem acredita nela.

Garantia só dá quem pode.

Marketing não é matemática. Por vezes 2 mais 2 = 5, ruim é quando 2 mais 2 dá 3.

Quem vai com muita sede ao pote, se afoga.

Um acidente pode valer tanto quanto a grande vitória.

Usar de sentimentalismo nos negócios é virtude.

O que é melhor?  Guardar um segredo ou avisar ao mundo de que o segredo é seu?

Todo campeonato tem vencedores e vencidos.

O capitalismo é o grande espetáculo dos negócios.

Uma peça só vale quando tem nome.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

A rua cheia -vazia- caí.
Vamos tomar uma cerveja na linha do trem!
não!

-Abre o portão,deixa ela entrar,é a filha do home,a filha do presidente...
-Filha de quem?!sou eu marília, que isso gente...
-Boa noite senhorita, bem vinda ao show!
-oi?!
-Aceita uma taça de champagne?
-aceito.
-Qualquer coisa eu estou a sua disposição.
-Obrigada querido!