terça-feira, 10 de abril de 2012
e você não percebeu.
terça-feira, 27 de março de 2012
Recado ao Senhor 903
“Vizinho,
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito a repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor; é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21h45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois as 8h15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará ate o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada: e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio. [...]"Rubem Braga
sábado, 17 de março de 2012
Um diálogo
Resolvi dar uma olhada em emails meus antigos e me deparei com alguns contos e textos que recebia de um amigo que conheci quando fui para o Maranhão. Ele é escritor, mas nunca mais nos correspondemos. Ele escreve umas coisas bem interessantes, e achei que poderia ser legal colocar algumas aqui. O monólogo então...
"De que falavam os móveis?
Posto que cheguei agora, do que é que eles
falavam, hein?
Por que a condição para participar da conversa é entender o assunto, vocês não acham?
Você falava de quê?
Nada?
E você disse o quê?
Nada também?
E ele, não opinou sobre isso?
Opinou?
E o quê que ele disse?
Nada?
Agora comecei a pegar o fio do discurso, nunca que eu imaginaria que a cadeira reagiria dessa forma, vão me dizer que vocês ficaram calados?
Não disseram nada?
Pois era pra dizer! Se eu tivesse estado lá, eu falaria! Porque eu cansei de falar para vocês que não dizer nada é muito diferente de dizer nada, porra! Não se pode ficar calado, calado jamais! E o que vocês me dizem?
Nada? ... Que bom saber que vocês entenderam...
Ah... não se preocupe pelo fato de eu, antes de você chegar, estar falando com os móveis...
Sabe o que a gente tem de melhor a se fazer nestes tempos de vacas magras?
(Não deixando que Nikolai respondesse) Nada!
Pense bem, nada! Risos
Uma vez olhei na TV um Anão com o pau de 24cm, acredita? Gabava-se o troglodita, de forma até a fazer raiva, daquele bendito pau... O programa foi passando e enrolando, o anão petulante dizia: não existe um homem que tenha um pau maior do que meu, e blá,blá,blá... Até que, enfim, ele mostrou a rôla... (Ele faz com as mãos o comprimento do pênis do anão). Que coisa monstruosa! (Enfático) um senhor caralho, meu amigo! Um senhor caralho!
As pessoas, de imediato, fizeram um silêncio catatônico... Mas um silêncio... Da mesma forma com que se depara com uma obra de arte - tipo o Teto da Capela de Sistina, de Michelangelo - e se calam atônitas mediante a obra de arte estonteante... Não... Não que o caralho do anão fosse uma obra de arte, mas não deixava de ser obra de Deus... (Rindo) Convenhamos! (Pausa) Eu me pergunto se esses programas de TV seriam a verdadeira arte moderna, mas esqueça! Eu sempre me esqueço o que é a arte moderna...
Eu te flagrei fazendo nada no momento em que eu nada fazia, se o ‘fazer nada’ fosse inútil, o que seria da nossa prosa? Não há nada melhor do que estar aqui sentado ao seu lado neste laconismo que nos cerca, provendo apenas deste silêncio orgânico de batimentos cardíacos! Saiba que ser homem tem suas vantagens, uma delas é agir como um ruminante e não ser obrigado a comer capim... Diga-me, por que eu e você, sentados aqui, com a única preocupação de olhar pra esta janela, iríamos nos levantar, sair deste recinto e jogar uma pedra na vidraça?! Por que não podemos? É claro que nós podemos! Mas o que seria da prosa?
Pense na prosa, Nikolai!"
segunda-feira, 12 de março de 2012
Ano Passado em Marienbad
O ensaio de hoje me lembrou muito esse filme.
Um grande hotel,
exuberante, barroco,
suntuosa, mas friamente, decorado.
Um estranho perambula de quarto em quarto,
percorrendo corredores infindáveis,
em busca... de uma mulher.
Ele conta a ela de quando eles se encontraram...
ano passado...
"Pense mais uma vez".
No caso de amor apaixonado deles.
Ele está de volta para um encontro...
para levá-la consigo.
Mas ela alega não conhecê-lo.
"Mas eu nunca fui a Frederiksbad."
Ele insiste. Ela resiste.
"Em que quarto? Eu nunca fui a nenhum quarto com você".
"Você não quer se lembrar."
"Você está com medo."
"E você nunca viu esta foto?"
Ela lentamente se rende. Solene, confidente, ele relembra os fatos.
Quem está certo? Quem está mentindo?
Seria ele um sedutor ou um maníaco? Ou teria ele confundido duas pessoas diferentes?
O que realmente aconteceu ano passado?
quarta-feira, 7 de março de 2012
Para uma avenca partindo
segunda-feira, 5 de março de 2012
Para Bel.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Se puderem, perguntem ao pó:
sábado, 25 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Outro diálogo
Fage: Não senhor nada de canudos todos os meus títulos foram conquistados na vida Meus títulos são o lucro da empresa multiplicados por dois a cada três anos durante dez anos é uma receita multiplicada por 15 enquanto meus concorrentes estagnavam É a organização que deixo atrás de mim sólida pronta para enfrentar qualquer coisa é o ambiente que eu criei Um ambiente estimulante um ambiente fraternal que faz com que para cada um dos meus homens os interesses da empresa venham antes de qualquer coisa quando eu dizia vamos então íamos quando eu dizia é assim então era assim
Wallace: Quanto ganhava?
Fage: Com todas as comissões chegava a 91.000 bruto por ano
Wallace: E o senhor está pedindo
Fage: Para mim o salário não é o fator mais importante o que procuro antes de mais nada
Wallace: Apesar de tudo as pessoas na sua idade não se demitem sem mais nem menos sem garantir a retaguarda
Fage: De tanto fazer o que é razoável perde-se a dignidade
Wallace: Então explique
Fage: Ah uma história banal venda da empresa porque funcionava bem demais americanos que não entendem nada teria sido necessário que eu aceitasse continuar a trabalhar nessa firma onde tudo o que construí estava sendo desmontado
Wallace: Sua demissão teve de alguma forma para o senhor o valor de uma mensagem
Fage: Por que a gente trabalha? Para ganhar a vida? Mas que vida? Eu sei que a gente precisa ter uma ocupação eu vou me ocupar agora olhando este grão de poeira
Diálogo da peça: A procura de emprego- Michel Vinaver
Wallace: A sua mulher o acompanha?
Fage: Raramente ela esquia um pouquinho não muito
Wallace: Eu não faço muito esqui de pistas mas passeios
Fage: Nós também fazemos verdadeiras façanhas passar a noite nos refúgios dias inteiros na total ah eu o levaria com prazer conheço trilhas que poucos conhecem
Wallace: Descobri no ano passado alguns recantos quem sabe não teremos a oportunidade mas para o senhor é uma verdadeira paixão
Fage: Quando se leva uma vida como a minha
Wallace: Acelerada
Fage: O esqui é uma ruptura com tudo o que é confuso e mesquinho é se libertar da gravidade voar penetrar-se no desconhecido controlamos todos os músculos há uma espécie de harmonia entre a imensidão que nos envolve e o interior do corpo e é a minha filha com ela nos esquis somos unidos formamos uma dupla célebre em Courchevel ah o Fage e a filha dele
Wallace: A que hora costuma acordar?
Fage: Cedo estou de pé entre cinco e seis
Wallace: O que faz entre o momento que se levanta e o momento em que sai para o escritório?
Fage: Desculpe mas não estou entendendo
Wallace: Sou eu que me desculpo se a minha pergunta não foi clara
Fage: Tomo um banho
Wallace: Muito bom quente?
Fage: Morno debaixo do chuveiro recapitulo tudo o que vou ter que fazer durante o dia
Wallace: Fica muito tempo debaixo do chuveiro?
Fage:Estou esquecendo na verdade antes de tomar banho
Wallace: Ah
Fage: Claro faço ginástica começo pela saudação ao sol é um movimento de ioga muito simples que permite desabrochar uma maneira de tomar o impulso do dia
Wallace: Antes de se barbear?
Fage: Não consigo fazer a barba antes de minha xícara de café
Wallace: O senhor pratica ioga?
Fage: Encontrei esse movimento num programa de TV achei curioso experimentei
Wallace: Estávamos no banho
Fage: Desculpe no banho muitas vezes eu descubro a solução de meus problemas as decisões irrompem chego a esquecer o tempo isso até que um escarcéu na porta me traga de volta e é a minha filha Nathalie querendo usar o banheiro antes de ir à escola
Wallace: Se esse Mulawa quiser casar com a sua filha?
Fage: Nathalie tem dezesseis anos e aliás ela não quer saber de casamento nem de aborto.
Wallace: E o senhor?
Fage: Tem filhos o senhor?
Wallace: Se o pai fosse branco
Fage: E talvez pense que eu sou racista?
Wallace: É interessante no seu caso essa passividade assim como se deixou reduzir a pó na empresa do Bergognan
Fage: Como?
Wallace: Eles lhe pediram para baixar as calças e depois para andar de quatro com a bunda empinada e foi o que o senhor fez
Fage: Como?
Wallace: Sou eu quem lhe pergunto não foi por covardia congênita até pode se dizer que o senhor tem uma personalidade corajosa foi a necessidade de se sentir protegido o senhor tem alguma coisa infantil
Fage: Eu lhe asseguro que fiquei aliviado quando acabou
Wallace: Exatamente deixou que eles fizessem o que o senhor sabia que devia fazer mas não ousava fazer o senhor se aliviou como bem disse
Fage: Esses rapazes que recrutei formei com eles eu tinha uma responsabilidade
Wallace: E o senhor tenta encontrar na sua noção de dever um álibi para a sua covardia o que aliás duplica a covardia
Fage: Senhor eu tenho um outro encontro
Wallace: Sente-se
Fage: Engula suas palavras
Wallace: Vamos quieto
Fage: Você também cala a sua boca
Wallace: Bem estou anotando suas diferentes reações capacidade de aguentar golpes controle sobre si arroubo de dignidade
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
A Boa Vida
Duas senhoras dinamarquesas - mãe e filha - residem no ensolarado litoral português. Durante suas vidas, elas tiveram dinheiro suficiente para viver a boa vida: trabalho zero combinado a todo o tipo de prazer. Mas elas têm um problema: a fortuna acabou.
A Boa Vida é um documentário sobre como ser pobre quando você está acostumado a ser rico. Através dessa história simples, o filme desdobra um complexo conto sobre o inevitável destino de um família, sobre status e dinheiro, sobre eventos cruciais na história europeia, e sobre uma menina que cresceu acreditando que dinheiro cresce em árvores.
"Você não me preparou para nada disso. Eu fui criada para herdar montanhas de dinheiro, e elas não estão aqui."
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Quem não faz poeira come poeira.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
A paranóia da segurança
"Arma é poder, poder é segurança."