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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Eu parei para pensar nisso aqui # 5

Sobre a estrutura que estamos colando:

1) Sequência Fred, Gunnar, Rafa e Nat: Movimento urbano em alta. Imagens possíveis: avenidas, ruas, cruzamentos, viadutos, vias, ciclovias, curvas, esquinas, saídas e entradas. mão dupla, sinal de trânsito. aeroporto, rodoviária, porto. partidas e chegadas. "olha antes do ônibus partir eu...". 

as relações são rápidas. escorregadias. pequenas imagens. fragmentos de um fim. ou todo fim é um recomeço (?).

o que posso fazer para que você não vá embora?
existe outra saída possível?
aonde foi que rompemos as nossas baias? eu nem percebi...
eu deveria ter percebido?
o abismo que nos separa.
é meu?
é seu?
"e de quem é a culpa? hein? quem tem culpa?"
vocês.

A) Fred e Gunnar: o início de tudo. a exposição dessa relação. o tanto esse menino olha? o tempo passar para ele. e pra gente, passa? é sempre a mesma imagem? e para você Gunnar, que o observa, o tempo passa? um segundo ou toda uma história? O que se conta com os olhos e também o que não é preciso contar?

B) Fred, Gunnar, Rafa e Nat: me parece que a dor não era só deles. daqueles dois já mencionados. entram para ampliar a trama, atravessá-la, confundí-la. são passagens, são momentos, são flashes de imagens e de possíveis momentos vividos. ou inventados, quem sabe? eu dentro de vc, vc dentro de mim. ou quando vc me segurou naquele momento exato em que eu queria cair...são muitas as prováveis.

precisamos mais de: precisão, atenção, velocidade calculada, errância projetada no espaço. rigidez para encontrar o lugar da liberdade. 

C) Rafa e Nat: de repente um ônibus. esboço para um a possível história. uma relação. relação direta com a plateia. confusão. quem é ele? quem é ela? reflexo daqueles dois apresentados anteriormente? ele e ela são todos os outros. e sendo todos, são todo mundo. "é muita gente, muita".

precisamos: que a Nat encontre mais clareza no texto da avenca. que busque exercitá-lo para não balbuciar e não perder velocidade. é um texto grande, mas que carrega uma informação única. se ele não vem potente, o momento em que ele se quebra e retornamos ao movimento fica vazio, oco.

D) O somatório desses dois fragmentos resultam neste último. Fred volta com o texto e, agora, percebemos que este casal também é dotado da fala. links e hiperlinks livres e soltos. de quem é o seu passado? seu com certeza. e de mais quem? pequenos questionamentos, rolamentos no chão. uma breve disputa, um breve ringue de combate estilizado? 

precisamos: talvez, de mais malícia e força para esses rolamentos. entender melhor o espaço e tempo de entrada do Gunnar e da Nat para que ela e o Rafa n fiquem, espacialmente, prejudicados. Vamos ter paciência e fazer isso todos juntos? é um exercício matemático de: atenção e repetição.

E) Namorados. Talvez, dentro de tudo, ainda haja um momento para respirar. PORÉM, essa respiração não é descansada. Pelo contrário, ela é atenta. Como uma dar uma nova chance, um reencontro depois de um tempo. sabe? acho que todo mundo sabe. risos. 

precisamos: ajustar os espaços e o tempos. encontrar a simultaneidade e brutalidade que os dois casais possam executar juntos. falar sobre o peso dos corpos e entender melhor, mais uma vez, o funcionamento da força nos movimentos. de onde ela vem, para onde ela é projetada, quem e ajuda e como? acho que precisamos falar sobre isso de novo.

2) Sequência do jardim. Imagens: jardins, grama lisa, toalha de pic-nic, céu azul. balão colorido no ar, o moço que vende algodão doce e a velha insuportável que continua, desde o filme esqueceram de mim noventa mil, a dar milho para os pombos. vento bom, brisa doce e nova. som de dente. cachorro, gato, passarinho. harmonia. mas nem tanto. tem pipa, tem patins, bicicleta, patinete, até charrete tem. tem música no violão, o cara da poesia e o moço da gaita. tem gente velha e gente nova. tem de um tudo. E TEM O CORPO, imerso nesta totalidade quase que incapturável..e aqui estamos nós. nessa totalidade.

A) movimento de todos. sequência tá tudo bem + espasmos

precisamos: repassar a sequência para que ela possa estar bem clara e fresca no corpo de todos. é, realmente, necessário que todos compreendam a tênue passagem de qualidade entre as poses e os espasmos. poses: corpo confortável, leve, relaxado e quentinho. espasmos: corpo duro, bruto, pesado, tensionado e gelado. precisamos encontrar este contraponto no movimento. o corpo no espasmo quer sair do chão, curva-se para uma última tentativa que, no nosso caso, são três. o fato dos espasmos n serem coreografados não implica que vcs joguem uns com os outros. o seu espasmos não é um reflexo ou resposta a tentativa do outro. neste momento, só existe um objetivo: realizar três tentativas frustradas de tirar o corpo do chão. é mais rápido. mais latente. dolorido. pesado e bruto. marcar os queixos na finalização da movimentação é fundamental. breve imagem: mercado de cabeças. pessoas em liquidação.

B) Momento só das meninas em cena. Chiliquinhos. Sequência dos pés que trazem as mãos.

precisamos: abrir a escuta para perceber o movimento da pessoas que vem antes. descobrir o tempo de duração de cada levada de movimento. igualar a intensidade dos pés e das mãos. Lila, acho que vc é a pessoa que pode se encarregar disso. Meninas, vamos pegar com o a Lila o tempo e a qualidade deste movimento, ok? Ok.

C) Saída das meninas. Lila em cena. Texto.

precisamos: descoordenar o texto do corpo. cada um traz uma informação em separado. aqui quem liga é o espectador. o corpo é pose e o texto é espasmo, seguindo a mesma lógica de sugestões qualitativas dadas as palavras anteriormente. 

D) Aceno para rolamento. 

precisamos: compreender que "acenar" para quem está no chão é um gesto de gentileza. como quem diz: estou de volta, posso recuperar o lugar senhor? ainda é meu este canto, bela senhora? há algo de cordial neste corpo que se apresenta em pé para deitar-se por livre vontade. esse comentário serve também para a entrada das meninas no início desta sequência de número dois.

3) Nos acenos, bel retorna e sobra.

paro por aqui, pois acredito que precisamos compreender melhor essa colagem. ter a certeza da dramaturgia que ela apresenta.

é isso meus amores.

quando chegarem aqui, releiam este escrito.

beijocas.









quarta-feira, 18 de abril de 2012

Coreografia composição Gunnar/Fred

Apresentação:


Sequência 1 -
(Fred sozinho - entra Gunnar)

A - Início/até abaixar.


B - Até o coice.

(Entra Rafa/ Nat)
C - Transições e abraços.
(Sai Gunnar em cima do Fred)


Sequência 2 -
(Texto Nat - "Avenca" até  "Você tá acompanhando meu raciocínio?")
A - Até coice.


(Entra Gunnar e Fred)
B - Transições e rolamentos.
(Diálogo "Avenca" Fred/ Gunnar, até "compreende?")


C - Namorados.
( Texto deixa Nat/Gunnar - "é claro")


( Entra Lila, Bel, Caca, Aline)
D - Prainha. ( espasmos / quique de bunda 4x/ posições relaxamentos)



quinta-feira, 5 de abril de 2012

DO DIA EM QUE VIREI UM BICHO

Samira Ávila, do Cia Espanca!:


Lembro do ensaio em que a Grace me deu quatro páginas de xerox do capítulo “A viagem” do livro “Perto de um coração selvagem”, da Clarice. Minha Mulher já sabia cair, mas tinha que aprender a se levantar. Eu tinha dificuldades de encontrar forças pra ela. Achava que ela não tinha mais motivos para seguir em frente, para repetir tudo. Aí eu li o texto da Clarice. Fiquei perturbada com a mulher do coração selvagem. Sempre gostei de cavalos. Queria que o grupo se chamasse “Grupo de Cavalos” e já havia decidido há muito tempo que quando eu tiver um cachorro ele vai se chamar “cavalo”. Já tive um cavalo também quando era pequena, mas acho que era mentira do meu pai. E, sim, Clarice: eu iria me arranjar sendo um bicho. Reli o texto.

(…)eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheia de vontades de humanidade, não o passado correndo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei, só então viverei maior que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo”.

Escrevi muito urgentemente alguma coisa atrás de uma das folhas do xerox e fizemos uma improvisação da Cerimônia das Palmas. Era aquilo. A Mulher nunca ficou tão fraca, era extremamente cansativo tentar se salvar. E se levantar não significava ser forte.

“O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição”.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Temporários escapes

Núcleo Artérias | Fronteiras Móveis

(Texto daqui)

Para aproveitar um espetáculo de dança contemporânea, é preciso entrar no clima. Se a perturbação inicial falar mais alto, arrisca-se perder uma experiência da qual poderia tirar proveito para a “vida real”. As apresentações de Fronteiras Móveis em Curitiba, sábado e domingo, prometem transportar o espectador para um estado de reflexão sobre o medo nas cidades. Motivados pelo pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 85 anos, os paulistas do Núcleo Artérias trazem ao Teatro José Maria Santos um trabalho baseado na vulnerabilidade do corpo e na instabilidade das relações interpessoais.

Para traduzir isso para a dança, a coreógrafa Adriana Grechi usou a estrutura de um jogo na criação do espetáculo. Os bailarinos entram e saem de cena rapidamente, sozinhos ou em interações que sugerem a desconfiança das ruas e até o conflito.

Para Adriana, essa apreensão cotidiana modifica a maneira como nos movemos no dia a dia, obrigando-nos a prestar atenção a muitas coisas ao mesmo tempo. “Estamos sempre indo para um lugar e ao mesmo tempo olhando para o lado, para trás, em um constante estado de atenção”, explicou Ana à Gazeta do Povo.

Essa característica moderna vira no espetáculo de dança uma provocação, que tira proveito da grande proximidade com a plateia, tornando a obra interativa sem ser agressiva. E a trilha sonora, bem colocada, contribui para o estado de tensão.

Por fim, um elemento importante para essa exposição de nossas neuroses urbanas é a captação de vídeo ao vivo e a imediata projeção num telão. Esse recurso tem se repetido em espetáculos de dança, pelo jeito porque dá certo: ver closes dos rostos dos atores – com olhos que também dançam – contribui para a identificação com o trabalho que está sendo executado no palco.

As várias câmeras funcionam como circuitos internos de segurança, vigiando os artistas o tempo todo. “Todos viram caça e caçador”, explica Adriana.

Fronteiras Móveis faz parte da Trilogia Líquida, em que o núcleo de dança vem, há alguns anos, traduzindo o pensamento de Bauman para o palco. O título é inspirado em seu livro Medo Líquido, de 2008.

Naquele mesmo ano, o capítulo que agora chega repaginado a Curitiba recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) para criação em dança. Outras questões já abordadas pelo grupo em seus trabalhos são a incerteza, o consumismo e a espetacularização.

Eadweard Muybridge | Locomotion | Decupando movimentos





domingo, 11 de março de 2012

Ensaio de 'Núcleos', de João Saldanha



Achei a referência que a Bel dividiu com vcs em alguma de nossas conversas.

em especial:

- notem os deslocamentos
- Lila, note como o bailarino é enorme, mas trabalha e imprime uma imagem pequena.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Eu parei para pensar nisso aqui.

A ideia de usar a "dancinha" do Rafa como prólogo do espetáculo me atravessou hoje no percurso de casa para o ensaio. Experimentar a ideia foi bastante interessante... Eu diria fascinante. Escrevo para tentar compreender melhor o que ela inaugura e também para dividir com vocês os meus pensamentos. A "dancinha" enquanto abertura se manifesta como algo que eu poderia classificar como nível zero. Ou seja, ela abre espaço para que qualquer tipo de informação ou material sejam apresentados depois.  Ela é o drama neutro que abre as portas para novos e interligados dramas sujos. Ela namora, critica, brinca com o corpo e com o espaço na suavidade de um deboche que é físico. Ela esboça, com crueldade e um ótimo uso do corpo e do tempo, as qualidades: duração, repetição, esforço, precisão e refinamento. Ela, ao mesmo tempo que recebe, também distancia o espectador da obra, faz com que ele se interrogue sobre o que virá depois. Faz com que ele se pergunte, assim como eu venho me perguntando: sobre o que e sobre quem este espetáculo fala? Então, leio a "dancinha" como um lugar poético para a fuga cotidiana, para o desbravamento do corpo em seu limite e suor, para a fuga das relações cansadas e da estranheza que é ser um ser casal; como uma espécie de espelho social, uma viagem do micro ao macro, o caminho das pedras a ser percorrido por todos os corpos que, logo em seguida, serão apresentados. Leio como quem lê um romance longo, faz uma viagem para Lisboa ou toma um bom café da manhã. Como quando preparamos o espectador para despertar, para acordar o corpo, abrir os olhos e atentar a escuta para os mínimos detalhes. Os olhos que se movem, a boca que esboça palavras ou números, as mãos que dedilham, os cotovelos que brincam  no ar de ir e voltar. Gosto da "dancinha" em razão de sua pureza urbana e nada bucólica. Por ora penso em treino de dança, bailarinos em movimento que tentam atingir a perfeição na execução de um gesto banal. Como é difícil presentar o cotidiano, a ação básica de mover-se no dia a dia. Depois penso no corpo-máquina, no homem-bomba, no cansaço dos operários na repetição diária do trabalho mal pago. Aí penso nas relações de poder, na flexibilização delas, nas lacunas que deixam abertas e que precisamos ocupar. Penso ainda nas verdadeiras empresas que são os relacionamentos afetivos, na manutenção do bem-amado, do bem-querer. É bom o bem-casado? Você trouxe o que eu te pedi - ele pergunta e ela dança. Rio alto. Na verdade, tenho medo de rir. Tem graça ver alguém cansado? Me questiono. Questiono a obra e seu lugar. Depois dela, da "dancinha" alguém entra e, de costas, canta uma música. Essa música então ressignifica tudo. Ou melhor, ela tenta. Tenta por ordem no recinto, trazer sentido e razão para todo aquele alvoroço contido que, inicialmente, foi apresentado. A música embala o Rafa que, inconscientemente, micro-muda a qualidade de seus movimentos. Agora eu não sei mais quem dança... É ele quem comanda a música ou por ela é comandado? Quem ali, no auge daquela dor, canta para quem? Quem teria coragem de denunciar: FOCO, SUPORTE. Não sei. Este não-saber me alegra, prossigo vivo, questionando o espaço, tudo e todos. Todos entram. Aí, acabou chorare, mas não ficou tudo lindo. É pior, é grave. São mais pessoas, mais gente, mais povo, mais corpos e mais cabeças. Tudo Dói, Caetano batizou uma canção com este nome e, em seguida, lhe deu de presente para a Gal.

Para uma avenca partindo

- Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas  coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente , entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando o meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos dos cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que eu estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra coisa, de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o seu relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez, samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que eu estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é a minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que queria te dizer,  pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que eu estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir  que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas essas coisas, é por isso que eu estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavas, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que eu estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos pra quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê. 

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de março de 2012

Para Bel.


Bel, compadecemos dessa dor. Acho de uma beleza única este material. Vamos pensar sobre ele? Partiturar? Experimentar partes em jogo? Desenvolver? Que bela citação, que bela consideração sobre aquilo que se move sem rédea e em direção ao nada. Vamos a luta!

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Seabiscuit - Final Race

Nesse vídeo, vale reparar a posição em que os cavaleiros ficam quando montados no cavalo. Eles não encostam o bumbum no assento!!! E o movimento constante dos braços tbm é bem legal!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cataploft: Sobre cair em pé

Demolir : "deitar abaixo, desmantelar, destruir, derrubar"

Os maiores demolidores eram os bancos, principalmente em cidades do interior, onde agências proliferaram.
Hoje já não existe predominância de nenhum setor.
Temos atendido indústrias, bancos, construtoras e particulares na mesma proporção.
A crise preocupa, mas se sabe que a demolição nunca vai parar.
"Qualquer construção precisa de uma demolição" - "O moderno tem prioridade sobre o antigo".

"Ser demolidor é agradável", "É uma lição de vida. Aprendi muito sobre as pessoas e sobre si mesmo fazendo demolições".

(Os trechos tirei daqui)