segunda-feira, 5 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
O ruivo
sexta-feira, 2 de março de 2012
Diálogo "Noir"
Homem: Trouxe o que te pedi?
Mulher: Não foi fácil.
Homem: Onde está?
Mulher: Por muito pouco ele não quis o drink.
Homem: Você já foi melhor nisso.
Mulher: O problema é que eu perdi o prazer nesse jogo.
Homem: Você não joga; você segue meus comandos.
Mulher: Quero minha parte do acordo.
Homem: Onde está a maleta?
Mulher: Estou farta de me apresentar à paisana naquele bar mal-frequentado. Garanto que consigo mais informações depois de uma foto na primeira página do The News Time.
Homem: E você acha mesmo que eles vão arriscar perder prestígio?
Mulher: Você disse que tinha um contato.
Homem: Eu diria qualquer coisa para ter alguém na cama todos os dias sem precisar desembolsar. E na devida circunstância, até que você serve bem.
Mulher: Você sabe o quanto sou assediada.
Homem: Então me dê a maleta e vai embora.
Mulher: Você precisa de mim.
Homem: Eu só preciso de uma peça de dama pra jogar. Preta ou branca, não importa.
Mulher: Ok. Então eu fico com a maleta.
Homem: Você sabe o que isso significaria, não sabe?
Mulher: Vai me seduzir e me apagar com um copo de whisky?
Homem: Não faço teatro.
Mulher: Você nunca faz o serviço sujo.
Homem: Eu não deixo rastros.
Mulher: Podia ser diferente.
Homem: Você quis ser malcriada...
Mulher: Eu só quero um pouco da sua atenção.
Homem: A maleta!
Mulher: Você sabe que me apaixonei...
Homem: Eu não te culpo.
Mulher: Eu sempre acabo fazendo as suas vontades.
Homem: Isso me polpa de mais um pecado.
Mapa da Nat
Auto-mapeamento poético corporal
Do extremo topo, o couro.
Do fluido pelo avança para além das pontas memórias, ideias, angustias, medo.
A linha pontilhada emenda ao corpo em meandros tortos cabeça e cia.
Ossos fragmentados desorganizam um eixo
Queixo-me ao espelho: perfil sinuoso, fronte desarmônica.
Tapam a boca os finos dedos em grosseria.
Falanges dobram ao alcance dos dentes.
Relação antiga, sadônica, deformante: como parentes.
Como de costume, o corte.
Elevo os braços em busca do alcance.
Escápulas pularás, pularão – flexão!
As veias pulsão à fraqueza da mão.
Ao desequilíbrio, lanço-me.
Vertebra em seu domingo. Tenta-se desenrolar os nós.
Se não fosse tão paradoxal, eu beijaria meus pés.
A angustia instantânea incomoda-se com o esmalte descascado.
Os joelhos em hipertensão com a situação. Gargalham!
Querem chorar...
Preciso ir ao banheiro!
Mas meus ísquios, tão desconhecidos e impessoais, ainda estão voltados para cima!
Vou tentar segurar.
Transfiro todo o peso do corpo para o pé direito; o da topada anual em ceia de natal.
Enquanto isso, o outro está a bailar.
Meio sem jeito.
Meio em contração;
Abdome em relação.
A pupila fixa um ponto de poeira;
Me distraio com as outras sujeiras. Desequilíbrio.
Totalmente desequilibrada.
Mas eu estou bem.
Lamento apenas pela minha sola...
Que de tanta casca; tanta pele; tanta crosta;
Nenhuma farpa mais esfola.
Mas eu estou bem.
Estou perdida.
Tenho um mapa!
quinta-feira, 1 de março de 2012
As relações de poder
- que as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a outros tipos de relações (processos econômicos, relações de conhecimentos, relações sexuais), mas lhes são imanentes; são os efeitos imediatos das partilhas, desigualdades e desequilíbrios que se produzem nas mesmas e, reciprocamente, são as condições internas destas diferenciações; as relações de poder não estão em posição de superestrutura, com um simples papel de proibição ou de recondução; possuem, lá onde atuam, um papel diretamente produtor;
- que o poder vem de baixo; isto é, não há, no princípio das relações de poder, e como matriz geral, uma oposição binária e global entre os dominadores e os dominados, dualidade que repercuta de alto a baixo e sobre grupos cada vez mais restritos até as profundezas do corpo social. Deve-se, ao contrário, supor que as correlações de força múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social. Estes formam, então, uma linha de força geral que atravessa os afrontamentos locais e os liga entre si; evidentemente, em troca, procedem as redistribuições, alinhamentos, homogeneizações, arranjos de série, convergências desses afrontamentos locais. As grandes dominações são efeitos hegemônicos continuamente sustentados pela intensidade de todos estes afrontamentos;
- que as relações de poder são, ao mesmo tempo, intencionais e não subjetivas. Se, de fato, são inteligíveis, não é porque sejam efeito, em termos de causalidade, de uma outra instância que as explique, mas porque atravessadas de fora a fora por um cálculo: não há poder que se exerça sem uma série de miras e objetivos. Mas isso não quer dizer que resulte da escolha ou da decisão de um sujeito, individualmente; não busquemos a equipe que preside sua racionalidade; nem a casta que governa, nem os grupos que controlam os aparelhos do Estado, nem aqueles que tomam as decisões econômicas mais importantes, gerem o conjunto da rede de poderes que funciona em uma sociedade (e a faz funcionar); a racionalidade do poder é a das táticas muitas vezes bem explícitas no nível limitado em que se inscrevem -- cinismo local do poder -- que, encadeando-se entre si, invocando-se e se propagando, encontrando em outra parte apoio e condição, esboçam finalmente dispositivos de conjunto: lá, a lógica ainda é perfeitamente clara, as miras decifráveis e, contudo, acontece não haver mais ninguém para tê-las concebido e poucos para formulá-las: caráter implícito das grandes estratégias anônimas, quase mudas, que coordenam táticas loquazes, cujos "inventores" ou responsáveis quase nunca são hipócritas;
- que lá onde há poder há resistência e, no entanto (ou melhor, por isso mesmo), esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder. Deve-se afirmar que estamos necessariamente "no" poder, que dele não se "escapa", que não existe, relativamente a ele, exterior absoluto, por estarmos inelutavelmente submetidos à lei? Ou que, sendo a história ardil da razão, o poder seria o ardil da história -- aquele que sempre ganha? Isso equivaleria a desconhecer o caráter estritamente relacional das correlações de poder. Elas não podem existir senão em função de uma multiplicidade de pontos de resistência que representam, nas relações de poder, o papel do adversário, de alvo, de apoio, de saliência que permite a preensão. Esses pontos de resistência eståo presentes em toda a rede de poder. Mas isso não quer dizer que sejam apenas subproduto das mesmas, sua marca em negativo, formando, por oposição à dominação essencial, um reverso inteiramente passivo, fadado à infinita derrota. As resistências não se reduzem a uns poucos princípios heterogêneos; mas não é por isso que sejam ilusão, ou promessa necessariamente desrespeitada. Elas são o outro termo nas relações de poder; inscrevem-se nestas relações como o interlocutor irredutível. Também são, portanto, distribuídas de modo irregular: os pontos, os nós, os focos de resistência disseminam-se com mais ou menos densidade no tempo e no espaço, às vezes provocando o levante de grupos ou indivíduos de maneira definitiva, inflamando certos pontos do corpo, certos momentos da vida, certos tipos de comportamento. Grandes rupturas radicais, divisões binárias e maciças? Às vezes. É mais comum, entretanto, serem pontos de resistência móveis e transitórios, que introduzem na sociedade clivagens que se deslocam, rompem unidades e suscitam reagrupamentos, percorrem os próprios indivíduos, recortando-os e os remodelando, traçando neles, em seus corpos e almas, regiões irredutíveis. Da mesma forma que a rede das relações de poder acaba formando um tecido espesso que atravessa os aparelhos e as instituições, sem se localizar exatamente neles, também a pulverização dos pontos de resistência atravessa as estratificações sociais e as unidades individuais. E é certamente a codificação estratégica desses pontos de resistência que torna possível uma revolução, um pouco à maneira do estado que repousa sobre a integração institucional das relações de poder.
(Michel Foucault)